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Tag Archives: Cáucaso

Rodrigo Oliveira Fonseca, militante do PCB
Sob as formas do nacionalismo e da luta pela independência nacional escondem-se
diferentes processos históricos, ou distintas vertentes de um mesmo processo. A partir dos
séculos XVIII e XIX, com a expansão política, econômica e territorial de aparelhos de
estado já fortemente burgueses, desenvolveu-se um tipo de nacionalismo de integração
expansionista. É o caso, por exemplo, da Inglaterra, dos EUA, da França e da Alemanha,
onde os governos investiram no apoio civil à anexação de povos e territórios, e
internamente aumentaram seus poderes sobre a sociedade civil e sobre as regiões já
integradas.
O outro lado da moeda é justamente um nacionalismo de resistência a estes movimentos
de expansão e intensificação de poderes de determinados grupos dirigentes. Este
nacionalismo independentista, contrário à integração/espoliação, é legitimado pela
ocupação histórica de um território, além de particularidades étnicas, culturais e políticas,
e é muito mais diversificado que o primeiro nacionalismo. Do separatismo político à
autodeterminação dos povos temos um crescente que vai da menor à maior participação e
interesses populares nestes processos e na conformação de grupos dirigentes
efetivamente alternativos.
A nação e a independência são sempre, de uma forma ou de outra, projetos histórico-
políticos capitaneados por classes sociais em luta. Isto é mais importante para
entendermos estes diferentes processos do que o próprio fato de existirem línguas, etnias,
culturas e demais particularidades históricas sendo mobilizadas na sua legitimação. E para
além da existência de projetos legítimos desta natureza, o que temos visto é a velha
prática imperialista de ingerências no tabuleiro de forças do mundo, seja na conformação
de cabeças-de-ponte em áreas de acesso mais difícil (o caso de Israel no Oriente Médio e
do Tibet na China), seja na conformação de espaços territoriais que funcionem como
barreiras (por exemplo, a atração de antigas repúblicas pertencentes à URSS para a
OTAN, contra políticas e países rebeldes ao leste).
Voltando então nosso olhar para os acontecimentos destes       últimos dias no Cáucaso, de
que lado está a posição justa a favor da autodeterminação      dos povos, que não deve se
confundir com a tradicional balcanização, o “dividir para      melhor governar” da lógica
imperial? Entre a defesa da integridade da nação georgiana     e a defesa da independência
da nação osseta, qual deve ser a política dos comunistas?
*       *       *
Catorze horas de bombardeios ininterruptos, milhares de mortos, feridos e refugiados,
mais um foco de tensão global. A recente agressão ao povo da Ossétia do Sul pelo
governo da Geórgia é um exemplo da violência gerada pelo imperialismo, de sua desgraça
para a paz no mundo. Aproveitando-se do fato de as atenções estarem voltadas para as
Olimpíadas, o presidente georgiano Mikheil Saakashvili resolveu avançar no seu intento
(que é também o do governo estadunidense) de remover um dos obstáculos para o
ingresso da Geórgia na OTAN e na União Européia: a resistência do povo osseta em
abdicar de sua autonomia política e entregar seu território. Além disso, mesmo que a
Rússia esteja longe de significar o que foi a URSS, podemos pensar na formação de um
novo “cordão sanitário”, como o que se formou imediatamente após a Revolução de 1917,
a fim de isolá-la e submetê-la totalmente aos interesses do consórcio EUA-Europa. Numa
linha praticamente contínua, do Cáucaso ao Báltico, Azerbaijão, Geórgia, Ucrânia,
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Polônia, Lituânia, Letônia e Estônia têm mostrado disposição para cumprirem este papel,
que deve ser somado ao escudo antimíssil que os EUA estão montando na Europa, sob a
alegação de defesa contra ataques vindos do Irã e da Coréia do Norte. Tudo isso mostra
que a conformação de uma ordem multipolar não significa estabilidade e paz entre as
potências imperialistas. Afinal, a internacionalização dos fatores de produção (do capital e
do trabalho) não se faz sem crises e necessidades de ajustes por parte dos grupos
dirigentes locais.
Diferentemente da Armênia, que se mantém próxima da influência russa, o Azerbaijão e,
sobretudo, a Geórgia, vêm fazendo o seu dever de casa para ingressar no clube dos
países subordinados às potências ocidentais e poder recompensar suas classes
dirigentes. Estes três países do Cáucaso, que faziam parte da URSS e não passaram a
integrar a Federação Russa (como a Chechênia), vêm sendo assediados pelo consórcio
EUA-Europa em função de sua posição triplamente estratégica: no isolamento da Rússia;
no controle do oleoduto entre o Mar Cáspio e o Mediterrâneo; e numa eventual guerra
contra o Irã.
Vivendo nos séculos XVIII e XIX entre as pressões do Império Turco e do Império Russo
(verdadeiro “cárcere dos povos”, segundo Lênin), o Cáucaso contou com uma relativa
estabilidade e desenvolvimento no período soviético, com um investimento significativo da
URSS em suas regiões mais atrasadas. Ao mesmo tempo em que era dada uma
autonomia relativa às repúblicas e distritos autônomos da URSS (os Oblasts), houve uma
política deliberada de russificação e de impedimento da reunificação de povos divididos
em disputas históricas anteriores – o caso dos ossetas, que mesmo tendo lutado ao lado
dos bolcheviques contra o governo menchevique da Geórgia (1917-1921), continuaram
divididos entre o Oblast da Ossétia do Sul e a República Soviética da Ossétia do Norte.
Em 2003, na Geórgia, prometendo submeter ao controle central as regiões autônomas da
Ossétia do Sul e da Abecásia, Mikheil Saakashvili assumiu a presidência em meio à
“revolução rosa”, um movimento muito parecido com a “revolução laranja” da Ucrânia no
ano seguinte. Estes dois movimentos foram reações populares (apoiadas pelos
estadunidenses) aos governos corruptos e autoritários existentes em seus países, no
mesmo estilo dos governos russos de hoje e do período de apodrecimento da URSS.
Saakashvili dirigiu, logo no início de seu mandato, uma ofensiva contra a Abecásia e
conseguiu afastar os líderes separatistas do governo local, que nos anos 90 haviam
dirigido um processo de expulsão e massacre da população de origem georgiana da
região. Isso aumentou sua popularidade e deu-lhe forças para costurar mais facilmente
alianças com os EUA e a União Européia, tirando a Geórgia de seu isolamento e
dependência histórica dos russos. Como prova da construção destes novos laços, estão
presentes hoje no Iraque 2 mil soldados georgianos!
Os ossetas, por sua vez, vêm desde o fim da URSS buscando sua reunificação com o
norte, pertencente à Federação Russa. Já foram realizados dois referendos de consulta à
população sobre o desligamento da Geórgia, ambos vitoriosos para a causa (sendo que o
último, acompanhado por observadores internacionais, contou com a aprovação de 99%
dos votantes e só 5% de abstenção). Porém, como Saakashvili tem prestado um precioso
papel às potências ocidentais e a própria Rússia parece não se importar com uma
resolução em definitivo da crise na região, nenhuma organização internacional reconhece
a independência da República da Ossétia do Sul e o seu direito de unificação com a
República da Ossétia do Norte.
Nestes conflitos interimperialistas os comunistas não se vêem obrigados a optar por um ou
outro interesse de expansão do capital, por um ou outro equilíbrio de forças
conservadoras. Nossa opção internacionalista será sempre pelo proletariado, que não
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pode continuar sendo utilizado como massa de manobra pelos senhores da guerra.
Afinal, estes sempre encontrarão um jeito de acertarem suas diferenças, como o fizeram
liberais e nazistas diante da ameaça de expansão do comunismo após a I Guerra Mundial.
Os interesses da Rússia de Putin não são incompatíveis com os interesses dos EUA de
Bush e da Europa de Sarkozy. O desenvolvimento capitalista subordinado é uma fórmula
antiga. E vale lembrar que a Rússia apoiou as operações de guerra dos EUA no
Afeganistão. Foi coerente com o seu próprio discurso de combate ao terrorismo
separatista checheno, o que também explica porque às vezes canta em meio ao coro
contrário ao Irã. No ano passado, por exemplo, Putin propôs a Bush a instalação de uma
base antimíssil comum aos dois países a partir do Azerbaijão, da Turquia e do Iraque,
evitando um eventual ataque iraniano.
Como muitos artigos têm expressado, é curioso o jogo de trocas de sinais nos apoios aos
separatistas do Kosovo, da Chechênia e da Ossétia do Sul. Cada potência imperialista
apóia (com armamento e manipulação midiática) o separatismo que melhor lhe convém.
Lamentamos mesmo o quanto as experiências socialistas da URSS e da Iugoslávia não
foram capazes de desarmar ódios antigos entre estes povos historicamente manipulados,
no sentido de desenvolverem uma sólida cultura de fraternidade e cooperação. É imenso o
patrimônio histórico representado pela riqueza e diversidade cultural, lingüística e étnica
dos Bálcãs e do Cáucaso, o que o socialismo soube preservar. Mas é inegável o quanto
estes povos e suas economias são extremamente dependentes. A falta de uma política de
unidade estratégica e respeitosa entre os povos destas regiões só facilita a perpetuação
de sua exploração, manipulação e massacres comandados pelas classes dominantes
internas e externas.
As lutas por independência e autodeterminação dos povos sempre serão justas e
favoráveis à classe trabalhadora, desde que não sejam objetos de interesse dos pequenos
e grandes sócios do capital. Por outro lado, a progressiva internacionalização das classes
e das relações de produção do capitalismo, torna o mundo cada vez mais
interdependente. Uma efetiva autodeterminação dos povos não será fruto apenas do
enfrentamento a inimigos locais, ela só será possível na medida em que formos
levantando as barreiras históricas impostas pelo processo mundial de acumulação de
capital. Enquanto o capitalismo predominar, haverá guerra e destruição.
Diante disso, os comunistas devem renovar o chamado revolucionário pela paz contido n’A
Internacional:
Fomos de fumo embriagados,
Paz entre nós, guerra aos senhores!
Façamos greve de soldados!
Somos irmãos, trabalhadores!
Se a raça vil, cheia de galas,
Nos quer à força canibais,
Logo verá que as nossas balas
São para os nossos generais!

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