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O Pátria, nunca mais esqueceremos
Os heróis do quatro de Fevereio.
O Pátria, nós saudamos os teus filhos
Tombados pela nossa Independência.
Honramos o passado e a nossa História,
Construindo no Trabalho o Homem novo,
(repita as duas últimas linhas)

CORO
Angola, avante!
Revolução, pelo Poder Popular!
Pátria Unida, Liberdade,
Um só povo, uma só Nação!
(bis)

Levantemos nossas vozes libertadas
Para glóriados povos africanos.
Marchemos, combatentes angolanos,
Solidários com os poroso primidos.
Orgulhosos lutaremos Pela Paz
Com as forças progressistas do mundo.
(repita as duas últimas linhas)

OUÇA

trolebus60anos02trolebus60anos03trolebus60anos04trolebus60anos05trolebus60anos06trolebus60anos07Fotos tiradas por Rafael Asquini na data da foto.

Comemoração dos 60 anos do tróleibus em São Paulo

ADP LOGOMARCA OFICIAL 2009.

ADP LOGOMARCA OFICIAL 2009.

locomotiva-sao-paulo-patria

mapa 1890

mapa 1890

Transmissão da TV ASsembléia.

Transmissão da TV ASsembléia.

MAPA RODOVIÁRIO SP

MAPA RODOVIÁRIO SP

MENINA E BANDEIRA DE 1932

MENINA E BANDEIRA DE 1932

Nova logomarca da Rádio Globo.

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alexandre praetzel

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ressacada

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Franco Montoro

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Jean Tamazato

Jean Tamazato

Laudo Natel

Laudo Natel

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Rudolf Steiner

Rudolf Steiner

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Bueno

Bueno

uirapuru

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washington Luis

washington Luis

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Rosto da estátua do Borba Gato - Avenida Santo Amaro/ São Paulo.

Barragem da represa Guarapiranga em Santo Amaro, com vista também dos Rios Grande e Guarapiranga, que formam o Pinheiros.

Estação Santo Amaro do Metrô, vista da estação Santo Amaro da CPTM

estátua do borba gato

estátua do borba gato

9 de julho

9 de julho

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A E CARVALHO

A E CARVALHO

AMARAL GURGEL

AMARAL GURGEL

ARICANDUVA

ARICANDUVA

BANDEIRA

BANDEIRA

CACHOEIRINHA

CACHOEIRINHA

CAPELINHA

CAPELINHA

CARRÃO

CARRÃO

CASA VERDE

CASA VERDE

CIDADE TIRADENTES

CIDADE TIRADENTES

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GUARAPIRANGA

GUARAPIRANGA

GUARAPIRANGA

GUARAPIRANGA

JARDIM ÂNGELA

JARDIM ÂNGELA

JARDIM BRITÂNIA

JARDIM BRITÂNIA

JOÃO DIAS

JOÃO DIAS

LAPA

LAPA

MERCADO

MERCADO

PARELHEIROS

PARELHEIROS

PARQUE DOM PEDRO II

PARQUE DOM PEDRO II

PENHA

PENHA

PIRITUBA

PIRITUBA

PRINCESA ISABEL

PRINCESA ISABEL

SACOMÃ

SACOMÃ

SANTO AMARO

SANTO AMARO

SÃO MATEUS

SÃO MATEUS

SÃO MIGUEL

SÃO MIGUEL

SAPOPEMBA

SAPOPEMBA

VARGINHA

VARGINHA

VILA PRUDENTE

VILA PRUDENTE

O PAL ESTR A I TÁ LIA E SU A T R AJ ET Ó R IA : AS SO C IA T IVI SM O E ET N IC ID AD E – 1
I MIGRAÇÃO E F UTEBOL :
O C ASO P ALESTRA I TÁLIA
J OSÉ R ENATO DE C AMPOS
A RAÚJO
Doutorando em Ciências Sociais pelo IFCH/UNICAMP,
pesquisador do IDESP (Instituto de Estudos
Econômicos, Sociais e Políticos de São Paulo),
pesquisador e membro do CEMI (Centro de Estudos de
Migrações Internacionais).
A
pós a publicaço de uma carta, em 14 de agosto, seguida de uma
convocaço no dia 19, no Fanfulla (jornal de maior circulaço em São
Paulo na década de 1920, em língua italiana, dirigido aos imigrantes
italianos), o Palestra Itália foi fundado em 26 de agosto de 1914. Todos os integrantes
da comunidade italiana da cidade de São Paulo interessados na fundaço de um
quadro ítalo de futebol foram convocados a participarem de um evento a fim de
decidirem pela fundaço, definirem seu nome e marcarem a data da sua oficializaço.
Em 26 de agosto, o Palestra Itália é fundado na presença de 46 pessoas, reunidas com
o objetivo de estruturar um time de futebol representativo da comunidade italiana
fixada na cidade.
Estas pessoas têm por objetivo a reunião de simpatizantes e jogadores de origem
italiana, espalhados nos inúmeros clubes e times de futebol de São Paulo1. Luigi Cervo,
Vicenzo Ragognetti, Luigi Emanuele Marzo e Ezequiel Simone, formuladores e
difusores da idéia, avaliavam ser possível a formaço de um time de futebol constituído
por imigrantes italianos, representativo de todo o grupo da cidade de São Paulo, isto se
faria aproveitando o estado de espírito do grupo após uma excursão vitoriosa de dois
clubes italianos de futebol pelos gramados paulistanos, o Pro-Vercelli e o Torino, nos
anos de 1913 e 1914.
A preocupaço dos fundadores do Palestra Itália era perfeitamente justificável;
o esporte bretão permitia a estruturaço de um time em bases étnicas2, ainda mais se

1 – Principalmente naqueles do futebol varzeano, que extremamente difundido na cidade,
principalmente, no bairros operários. Em 1914 o futebol “oficial” era ainda dominado por alemães,
ingleses e as camadas mais abastadas da sociedade paulistana. Cf. ARAÚJO, 1996.
2 – Os times de futebol têm a característica de unirem os indivíduos ao seu redor (torcedores) pelos mais
variados motivos; com o passar do tempo eles se escondem atrás da aparente irracionalidade desta
identificaço – identificada como paixão – , mas a origem dos times e dos aficionados tem sempre
alguma motivaço racional, explicada muitas vezes através da representaço das identidade dos
indivíduos, como por exemplo, identidade dos habitantes de uma cidade, classe social, etnia, ou mesmo
religião. Um exemplo disto são os times de futebol italiano que representam as suas respectivas cidades,
ou dos times de Glasgow (Escócia) que representam os católicos e os protestantes.

O PAL ESTR A I TÁ LIA E SU A T R AJ ET Ó R IA : AS SO C IA T IVI SM O E ET N IC ID AD E – 2
levarmos em conta a maioritariedade de imigrantes3 em São Paulo, aliada à
popularizaço do futebol nos centros urbanos do país nesse período (MAZZONI, 1950).
Com isso, pretendiam criar uma associaço desportiva que enfrentaria os
tradicionais “teams” paulistanos: o Club Athletico Paulistano, a Associaço Athletica
São Bento, o Club Athletico Ypiranga, a Associaço Athletica Mackenzie, o Wanderers
Foot-Ball Club e a Associaço Atlética Palmeiras.
Estas eram as equipes que disputavam o campeonato oficial da cidade de São
Paulo, organizado pela APSA (Associaço Paulista de Sports Athleticos, embrião da
atual Federaço Paulista de Futebol) que representava os principais times da cidade –
os da elite paulistana (ARAÚJO, 1996). Mas futebol em São Paulo não se resumia
somente a estes times, existindo ainda uma outra entidade — a Liga Paulista de
Football — organizadora de um campeonato na cidade envolvendo outras equipes,
concorrendo com o torneio da APSA, e ainda, outros inúmeros times não filiados4.
O objetivo dos fundadores do Palestra Itália era a participaço no campeonato
oficial e de maior prestígio dentro da meio futebolístico paulistano e, portanto, o
convívio e o confronto direto com times representativos da elite paulistana. Para isto, o
pedido de filiaço nos quadros da APSA ocorreu logo no primeiro semestre de
funcionamento da entidade. No início de 1915, em 6 de janeiro, é noticiado a filiaço e o
pedido de inscriço para o campeonato daquele ano. OESP registrou o fato com uma
pequena notícia na sua coluna diária de esportes, sem nenhum comentário, mas com
uma informaço importante que ressaltava a representaço do grupo italiano de São
Paulo:
“(…) Esta sociedade composta de conceituados
moços pertencentes a colonia italiana de São
Paulo (…)”5.
O pedido de filiaço foi aceito com ressalvas pela APSA, junto com a intenço de
participaço no campeonato da cidade. O Palestra Itália só se tornou membro efetivo
da entidade um ano mais tarde, em 1916, quando disputou pela primeira vez o
campeonato. Um bom indício dessas ressalvas aparece num artigo publicado em
27/2/16 no OESP, criticando a maneira como o Palestra Itália foi aceito no
campeonato. Texto publicado uma semana após a aceitaço e a filiaço da associaço no
quadro efetivo da APSA, que excluía o Wenderers – por não ter condiçes financeiras e
estruturais para a disputa do campeonato – e optava pelo Palestra Itália para substitui-
lo, levantando dúvidas se seria o clube mais indicado.

3 – A idéia que São Paulo era uma cidade imigrante é muito difundida pela bibliografia que estudou a
imigraço estrangeira para a cidade (TRENTO, 1988; CARELLI, 1988; ALVIM, 1986, ARAÚJO, 1996).
4 – Estes times não filiados eram representativos de vários bairros da cidade, empresas, ou outros
grupos. Havia alguns times ligados aos grupos étnicos; entre estes, existiam outras equipes italianas que
seguiam a tendência de regionalizaço do movimento associativo italiano, motivo para a baixa
relevância no conjunto do futebol paulistano.
5 – OESP, 6/1/15.

O PAL ESTR A I TÁ LIA E SU A T R AJ ET Ó R IA : AS SO C IA T IVI SM O E ET N IC ID AD E – 3
Esta recusa à filiaço e participaço imediata no campeonato levanta uma
hipótese: o Palestra Itália não seria um participante natural de uma associaço que
organizava um esporte praticado pelos filhos da elite paulistana; por ser formado por
imigrantes e seus descendentes, era encarado com ressalvas por dirigentes e clubes
filiados.
A pesquisa realizada no OESP abrange os anos de 1915, 1916, 1917, 1920, 1933 e
1942, portanto, pretendo reconstruir a história do clube para visualizarmos o
relacionamento do Palestra Itália com as equipes representantes da elite paulistana;
através de um meio de comunicaço que expressava o ideário de uma parcela
significativa deste grupo social (CAPELATO, 1980, 1989); para esta empreitada,
apresentarei os fatos mais significativos com os quais me deparei em cada ano.
A fonte utilizada para este trabalho são as notícias publicadas na imprensa
esportiva paulistana da primeira metade do século XX. Em minha pesquisa foram
utilizados três periódicos da época, “O Estado de São Paulo”, “O Correio Paulistano”
e “A Platéa”, nos anos 1915, 1916, 1917, 1920, 1933 e 1942 . A base de dados, portanto,
para a reconstruço da história do Palestra Itália são as notícias publicadas no “O
Estado de São Paulo” nos seguintes anos: 1915, primeiro ano de funcionamento da
associaço; 1916, ano da primeira participaço da associaço no campeonato de futebol
da cidade de São Paulo; 1917, ano do primeiro campeonato que o Palestra Itália
destacou-se, conseguindo o vice-campeonato da cidade de São Paulo; 1920, ano da
conquista do primeiro campeonato; 19336, ano que a associaço detém a hegemonia no
futebol paulista, sagrando-se bicampeão e campeão do primeiro torneio brasileiro de
profissionais (como já foi destacado neste ano o profissionalismo nessa modalidade é
adotado no Brasil e em São Paulo, fato que modifica o caráter do futebol brasileiro); e
1942, ano da mudança do nome da associaço de Palestra Itália para Sociedade
Esportiva Palmeiras, por causa de pressões do governo brasileiro junto às associaçes
étnicas dos países do Eixo para que estas não manifestassem qualquer alusão ao país de
origem. Somam-se a esta base de dados as notícias sobre o Palestra Itália publicadas
pelo jornal “A Platea” em 1920, e no jornal “O Correio Paulistano” nos meses de
março, abril e maio de 1916, e julho e agosto de 1917.
Utilizo-me destes outros dois periódicos por razões diversas; o levantamento no
jornal “A Platea” foi realizado para a verificaço da forma dispensada na cobertura do
Palestra Itália por outro órgão da imprensa paulistana. Desejava constatar se a
cobertura do OESP se diferenciava em muito de outros periódicos da época estudada,

6 – 1933 foi escolhido e não 1934, quando o Palestra Itália tornou-se tricampeão paulista, por ser ano da
primeira disputa de campeonato brasileiro entre clubes (Campeonato Rio/São Paulo de Profissionais), e
pela adoço do futebol profissional no Brasil, fato polêmico muito discutido no meio. Na imprensa
esportiva deste ano apareceram repetidas acusaçes de prática do “falso amadorismo”, onde jogadores
ditos amadores eram na realidade profissionais, prática repudiada e reprimida pelos órgãos oficiais.
Esta repressão era uma tentativa de impedir que jogadores das classes baixas atuassem ao lado
dos filhos da elite (RODRIGUES FILHO, 1949), já que os “falsos amadores” eram indivíduos de poucos
recursos que necessitavam de pagamentos para poderem praticar o futebol. Um bom indício desta
tentativa aparece em uma notícia publicada pelo OESP, em 5/12/17, sobre a divulgaço da lei do
amadorismo, que considerava profissionais os analfabetos, que seriam proibidos de atuarem nos clubes
filiados à CBD (Confederaço Brasileira de Futebol).

O PAL ESTR A I TÁ LIA E SU A T R AJ ET Ó R IA : AS SO C IA T IVI SM O E ET N IC ID AD E – 4
por esta razão considerei desnecessário um levantamento exaustivo das notícias
publicadas em “A Platea”, realizando somente no ano do primeiro campeonato
conquistado pelo Palestra Itália. A escolha do “O Correio Paulistano” deve-se a um
problema prático; a coleço do OESP do “Arquivo do Estado de São Paulo” está
incompleta nos referidos meses de 1916 e 1917, com isso consegui ter uma idéia de
como este órgão da imprensa tratava a referida associaço.
Para o entendimento da história do Palestra Itália foi necessário entrar em
contato com sua história, mas a única fonte possível era o parecer “oficial” desta
associaço, encontrados em suas publicaçes, geralmente comemorativas.7 Este tipo de
relato histórico conta com uma séria limitaço, pois nos coloca frente aos grandes feitos
e às vitórias do Palestra Itália, escondendo-nos suas dificuldades, suas derrotas e suas
mazelas. Com isso ficaria impossível constatar o relacionamento dos paulistanos com
esta associaço desportiva, representante de uma parcela numerosa da sociedade e,
justamente, aquela que sofria sérias restriçes da parcela dominante da sociedade.
Dificilmente iria aparecer com clareza algum tipo de discriminaço ou restriço de seus
atos na sua história “oficial”. Portanto, a utilizaço exclusiva desta fonte, a única
previamente sistematizada, impedir-nos-ia de atingir o objetivo deste trabalho, que
seria o repensar da relaço entre o movimento associativo étnico e a formaço da
imagem da colônia italiana no imaginário da sociedade paulistana da primeira metade
deste século.
Desta maneira, tornou-se necessário a reconstruço da história do Palestra
Itália, com a história “oficial” servindo-nos apenas como parâmetro para esta tarefa.
Este trabalho poderia ser realizado das mais diversas formas, mas a que mais se
apresentou factível foi a reconstruço através de notícias de jornais. Outra forma seria
através de entrevistas com pessoas que atuaram nesta associaço, mas este recurso
metodológico foi descartado devido à impossibilidade de entrevistar a maioria das
pessoas relevantes na sua fundaço e seu no início8.
As notícias em jornais poderiam ser acompanhadas por todo o período através
da imprensa, que já contava com uma seço esportiva diária, e como esta associaço
tinha por objetivo a atuaço em campeonatos organizados pela principal entidade
esportiva da cidade de São Paulo (APSA), o Palestra Itália seria um dos alvos da
cobertura esportiva da imprensa diária paulistana. Mas como o período estudado
abrange quase três décadas, a tarefa de acompanhar diariamente as notícias em jornais,
mesmo que somente um fosse o escolhido, tornar-se-ia extenuante, repetitiva e mesmo
infrutífera. Portanto, tornou-se necessário um recorte, que me levou a escolher somente
alguns anos deste período; aqueles que assumiram certa relevância para o clube e/ou

7 – A própria associaço não conta com um arquivo sistematizado; além das publicaçes comemorativas
não existe nenhuma bibliografia que tente reconstruir a história do Palestra Itália.
8 – Como o Palestra Itália foi fundado há mais de 80 anos todas as pessoas que tiveram alguma atuação relevante
nos primeiros anos da associação não estão mais vivas, as únicas possíveis seriam aquelas que participaram do
clube na década de 40. Mas como o objetivo era a reconstrução de toda a história da associação, com especial
atenção aos primeiros anos de funcionamento, as entrevistas como fonte de dados foram descartadas. Assim mesmo
no início de minha pesquisa realizei uma entrevista com um antigo associado, freqüentador do clube desde da
década de 30, sr. Walter Pellegrini. Entrevista com um conteúdo marcadamente “oficial”, já que este era o
“historiador oficial” para as publicações da associação.

O PAL ESTR A I TÁ LIA E SU A T R AJ ET Ó R IA : AS SO C IA T IVI SM O E ET N IC ID AD E – 5
mesmo para o futebol (como 1933, que foi o ano da sua implantaço profissional no
Brasil, e o ano em que o Palestra Itália tornava-se uma das principais equipes dessa
modalidade).
Ao todo, foram selecionadas 779 notícias, depois de uma leitura minuciosa das
seçes esportivas diárias destes periódicos nos referidos anos. Estas matérias
jornalísticas foram classificadas por temas e agrupadas por ano, para que a análise do
conteúdo fosse factível.
Estas notícias foram arroladas seguindo alguns assuntos que interessavam aos
objetivos deste trabalho, isto é, todas as notícias que versavam sobre o Palestra Itália e
matérias sobre o desenrolar do futebol na cidade e no estado. A meta foi acompanhar a
trajetória desta associaço e o desenvolvimento do futebol enquanto modalidade
esportiva que atraía uma enorme atenço dentro da cidade de São Paulo.
TABELA 1
NÚMERO DE NOTÍCIAS SELECIONADAS EM CADA ANO
ANOS 1915 1916 1917 1920 1933 1942 TOTALI
NO DE NOTÍCIAS 38 77 127 192 191 154 779
Fonte: Pesquisa documental na imprensa (OESP, AP, CP)
I. O número total (779) desta tabela representa o número de notícias selecionadas, sem a seleço
temática.
1915
Este seria o primeiro ano de funcionamento efetivo do Palestra Itália, que fora
fundado no segundo semestre de 1914, e também quando aparecerá a primeira notícia
sobre a associaço no OESP. Como foi indicado, esta primeira referência ao Palestra
Itália dizia respeito a sua filiaço à APSA e o pedido para participarem do campeonato
daquele ano — que seria recusado — e deixava bem claro suas origens ligadas ao grupo
italiano da cidade de São Paulo.
Foram catalogadas 38 notícias neste ano, sendo 18 diretamente referentes à
associaço e, dentre estas, 16 referiam-se a realizaço de jogos beneficentes onde o
Palestra Itália era um dos envolvidos; as outras duas versavam sobre a filiaço à APSA
e à realizaço de um jogo amistoso em Votorantim (interior do estado, região de
Sorocaba). Este fato indica que a associaço, em seu primeiro ano de funcionamento,
dedicou-se a realizar jogos beneficentes, já que não disputou o campeonato de 1915.
O fato que mais chama a atenço é que, apesar de OESP ter noticiado a
realizaço do jogo entre Palestra Itália e o Sport Club Savóia, de Votorantim, em duas
matérias dos dias 23/1 e 27/1, o periódico somente considerou a estréia da associaço
no futebol quando esta enfrentou o Paulistano em 29/6. Isto se deve ao fato de ter sido
o primeiro embate contra uma das equipes filiadas à APSA.
A realizaço de jogos beneficentes para o Palestra Itália pode ser entendida
como uma maneira da associaço demonstrar seu objetivo de integrar o futebol

O PAL ESTR A I TÁ LIA E SU A T R AJ ET Ó R IA : AS SO C IA T IVI SM O E ET N IC ID AD E – 6
“oficial”9 da cidade; o acerto de jogos com rendas revertidas à alguma instituiço pode
ser entendido como uma estratégia de integraço ao futebol organizado pela APSA,
ainda mais se levarmos em conta que o primeiro jogo fora contra uma das mais fortes e
influentes equipes da entidade, o C.A. Paulistano.
Esta disputa fora organizada em benefício da Cruz Vermelha Italiana,
provavelmente com o objetivo paralelo de mobilizar o contigente imigrante da cidade
e, com isso, iniciar a representaço do grupo italiano no futebol. Este fato indica o plano
estratégico da associaço; pertencer ao futebol “oficial” e congregar o grupo italiano da
cidade. É importante lembrar que a Europa estava em guerra e a Itália era um dos
países belicosos; a ajuda a Cruz Vermelha Italiana seria uma forma de mobilizar os
imigrantes italianos tocando em seu sentimento nacional.
Estes fatos indicam que o Palestra Itália não desejava somente o
reconhecimento de seu grupo social, mas de toda a sociedade paulistana, por isso
enfrentava equipes de fora de seu espectro social. Outro dado importante é a ausência
de jogos entre o Palestra Itália e outras equipes do grupo italiano10, demonstrando que
o objetivo da associaço não era restringir-se ao seio de seu grupo, mas de representá-lo
perante à sociedade paulistana dentro da arena esportiva. Como veremos adiante, o
confronto com equipes do futebol “oficial” serviria à associaço tonar-se a equipe
representante dos imigrantes italianos da cidade; estes veriam seus pares disputando
em igualdade de condiçes com a elite paulistana, num período onde o imigrante não
desfrutava das mesmas oportunidades em outros setores da vida social.
Sem dúvida, o Palestra Itália queria e necessitava se tornar a equipe que
representaria o contingente italiano da cidade de São Paulo; todo time de futebol, para
se manter em níveis competitivos, necessita de uma quantidade razoável de pessoas
aficionadas. A única maneira desta associaço conseguir seus “torcedores” seria dentro
do grupo italiano, pois na primeira década deste século, quem em São Paulo torceria
por um “team” com esta escalaço:
Stillitano
Pollici e Gambini I
Valle, Fiaschi e Alegretti
Amilcare, Ferri, Cavinato, Cervo e Giannetti II11
Não nos esqueçamos que neste período os nomes encontrados nas equipes do
futebol “oficial” estavam ligados à elite paulistana ou eram de origem inglesa e alemã

9 – Apesar de não aparecer no noticiário esportivo da imprensa é muito provável que o Palestra Itália
tenha realizado jogos no futebol “varzeano”, como forma de preparaço de sua equipe.
10 – Em 1915 existiam outros times ligados ao grupo italiano, como: Ítalo Team, Bersaglieri F. C.,
Athletico Itália (de São Caetano), Societá Calcista Fiorentina, A. A. Firenze, Centro Recreativo Sportivo
Piemonte (todos estes times tiveram alguma referência nas páginas diárias do OESP).
11 – Esta é a primeira escalaço da equipe no Palestra Itália publicada pelo OESP, a formaço da equipe
foi dada dentro da notícia sobre a partida com o S. C. Savóia no dia 23/1/15. Reproduzo graficamente a
maneira como as escalaçes eram apresentadas pela imprensa do período, esta representaço segue a
disposiço tática dos times, que jogavam com um goleiro, dois zagueiros, três meio-campistas e 5
atacantes.

O PAL ESTR A I TÁ LIA E SU A T R AJ ET Ó R IA : AS SO C IA T IVI SM O E ET N IC ID AD E – 7
(ARAÚJO, 1996), portanto, um time composto de italianos e seus descendentes não
freqüentaria os jogos do Velódromo; com certeza, encontraríamos dezenas com este
perfil espalhados pela Paulicéia, mas disputavam partidas nos finais de semana nos
bairros da cidade, no já citado futebol “varzeano”.
Assim, o Palestra Itália não representava somente uma invasão de imigrantes
italianos, na sua maioria originários das classes menos abastadas, mas, também, uma
invasão nas arquibancadas de “torcedores italianos”, estes se deslocariam de bairros
periféricos e operários, como a Moóca, o Brás, a Barra Funda e o Bexiga para
acompanharem os feitos de “italianos” como eles contra a elite local.
O Palestra Itália abriria possibilidades de indivíduos deixarem suas origens e
sentimentos étnicos transparecerem perante à sociedade receptora, que, no caso da
paulistana, sempre menosprezou aqueles com esta origem. A associaço encontrava um
espaço para demonstrar a “força” e o “valor moral” do grupo numa arena, onde estes
fatores estavam em jogo12. Mas o ano de 1915 era ainda os primeiros passos para que
isto se tornasse possível.
1916
Sua campanha no campeonato foi bastante modesta; o Palestra Itália terminou
na sexta posiço, num torneio onde houve sete participantes: Paulistano, São Bento,
Ypiranga, Mackenzie, Palmeiras, Palestra Itália e Santos13. Mas este ano torna-se
relevante na história da associaço, pois seria o primeiro momento que enfrentaria a
elite do futebol paulistano. O Palestra Itália estreou no campeonato da APSA na
partida inaugural do torneio contra o Mackenzie, em 13/5, empatando em 1 gol14, com
a seguinte escalaço:
Fabbrini
Grimaldi e Ricco
Fabbio II, Bianco e De Biasi
Gobbato, Valle II, Viscovini, Bernardini e Cestare15
Como foi demonstrado, o processo de admissão no campeonato da APSA não foi
muito simples; o Palestra Itália havia requerido sua participaço logo no momento de
sua filiaço no ano anterior. Mas a entidade que a aceitava, ao mesmo tempo recusava a
vaga no campeonato; esta somente foi conseguida em 1916 com a exclusão do
Wenderers.

12 – Como podemos constatar no capítulo 3 de minha dissertaço de mestrado que discute o futebol e o
esporte no Brasil e na cidade de São Paulo neste período.
13 – Esta é a ordem da classificaço do campeonato de 1916, publicada em 03/11/16 pelo OESP. Esta é a
última notícia do ano que dá a tabela de classificaço, apesar do campeonato ainda ter algumas partidas
disputados posteriormente o quadro ficou inalterado.
14 – O segundo time do Palestra venceu o do Mackenzie por 2 a 1, com a seguinte escalaço: Migliari,
D’Andrea, Navarria, Vale I, Olivieri, De Nardi, Salermo, Valeri, Delascio, ForteII e Forte I; com Sagnori,
Borba, Procido e Grandi como reservas.
15 – Reservas: Delascio e Forte II.

O PAL ESTR A I TÁ LIA E SU A T R AJ ET Ó R IA : AS SO C IA T IVI SM O E ET N IC ID AD E – 8
Sua admissão nesta data provavelmente estaria ligada às origens da agremiaço,
pois, neste mesmo ano, o S. C. Corinthians Paulista retirava-se da APSA por ser
impedido de participar do campeonato (NEGREIROS, 1992). Estas duas equipes
tinham origens nas camadas populares da sociedade16, e a razão da aceitaço do
Palestra Itália em detrimento ao Corinthians deve-se a dois fatos.
O primeiro seria que o Corinthians era uma das melhores equipes da cidade17; a
APSA e o futebol paulistano ainda não estariam preparados a presenciarem a
participaço principalmente, as conseqüentes vitórias de um time de bases populares
sobre as principais equipes do futebol. A escolha do Palestra Itália deve-se ao fato
desta equipe ainda não ser poderosa tecnicamente, como atestavam os resultados
obtidos nos jogos beneficentes do ano anterior contra o Paulistano e o Santos. Portanto,
sua participaço representaria a primeira de uma equipe com bases populares no
campeonato oficial da cidade, sem constituir uma ameaça a hegemonia dos times da
elite paulistana.
Já, o segundo fato, o Palestra Itália apesar de não ter origem “nobre”, não era
uma equipe advinda do futebol “varzeano”, como o S. C. Corinthians Paulista, mas
deu-se pelas mãos dos extratos médios do grupo italiano. Então, podemos entender sua
aceitaço como uma estratégia da APSA, que teria um membro efetivo de aparente
origem popular, por este estar ligado ao grupo italiano; ao mesmo tempo, garantiria a
hegemonia dos “grandes” da cidade, em detrimento de outra equipe com nítidas bases
populares e que ainda seria uma ameaça real a equipes como Paulistano, São Bento,
Palmeiras e Mackenzie.
Os jogos beneficentes, marca do primeiro ano da trajetória da associaço em
1916, diminuíram em quantidade; neste ano, o Palestra Itália realizou um jogo contra o
Mackenzie em prol do “Comite Feminino Italiano Pro-Itália”. Esta partida valeu 6
matérias publicadas pelo OESP, demonstrando uma relativa importância para o jogo,
válido também para o campeonato da APSA. Nesta peleja, vencida pelo Mackenzie por
3 a 1, foi disputada uma taça oferecida pelo “cav. off.” Ermelino Matarazzo; mais uma
vez a associaço tocava no sentimento nacional do grupo italiano.
Nesse mesmo ano o Palestra Itália realizaria ainda 6 partidas amistosas fora da
capital, enfrentando duas vezes o Santos F. C. em Santos, o Black Team em Campinas,
o Sport Club Taubaté nesta cidade, a Associaço Athletica Caçapavense em Caçapava
e o Guarany de Campinas. Um fato que se destaca é que nas notícias sobre os jogos
contra o Santos e o Taubaté houve uma referência direta ao grupo italiano.
Sobre a primeira partida realizada em Santos, o periódico destaca que era
aguardada ansiosamente não só por o Palestra Itália nunca ter atuado na cidade, mas

16 – Existe no futebol brasileiro a idéia que o Palestra Itália seria fruto de uma dissidência do S. C.
Corinthians Paulista, pelo fato de alguns jogadores do Corinthians (como Bianco, um dos maiores
craques da primeira fase do Palestra Itália) terem ido atuar no Palestra a partir de sua fundaço.
Provavelmente, os jogadores que foram atuar no Palestra mudaram de time por causa da idéia inicial do
Palestra de congregar jogadores italianos da cidade numa equipe que representaria o grupo italiano, e
não por uma dissidência do Corinthians que era uma equipe sem bases étnicas definidas.
17 – Como foi indicado no capítulo 3 esta equipe desejava disputar o campeonato da APSA por não mais
encontrar equipes a sua altura no futebol “varzeano”.

O PAL ESTR A I TÁ LIA E SU A T R AJ ET Ó R IA : AS SO C IA T IVI SM O E ET N IC ID AD E – 9
por ser o representante da “colônia” italiana em São Paulo, nas palavras do jornal: “(…)
como também por ser constituido do escol da colonia italiana em São Paulo”18. No
jogo em Taubaté, OESP em seu relato sobre o desenrolar da partida, vencida pelo time
da capital por 1 a 0, destaca que houve uma festa oferecida pela “colônia” italiana local
em homenagem ao Palestra Itália, como indica esta passagem publicada em 31/7:
“A noite na residencia do Sr. Cav. Monteri
realisou-se animado baile, offerecido pelo colonia
italiana aos rapazes do Palestra Itália.”
Mesmo nas outras partidas realizadas no interior do estado, é muito provável
que estas reunissem um número respeitável de pessoas ligadas ao grupo italiano das
cidades locais. Ainda mais se lembrarmos que Campinas19, cidade onde o Palestra
Itália apresentou-se por duas vezes em 1916, concentrava um grande número de
imigrantes, já que era um dos principais centros produtores de café do estado.
Somando-se a estas partidas realizadas no interior, o Palestra Itália ainda
realizou três amistosos na capital em 1916, contra a A. A. Palmeiras, o C. A. Ypiranga e
o Black Team de Campinas. Todas estes jogos devem ser entendidos como uma
necessidade em se apresentar para a sociedade paulistana e aglutinar um número
maior de simpatizantes dentro do grupo italiano, segundo a estratégia da associaço.
Como neste ano o Palestra Itália conseguira seu intuito de disputar o campeonato da
APSA, o número de jogos contra as grandes equipes da capital foi menor dos que
aqueles realizados no interior do estado.
No ano anterior, o Palestra Itália somente participou de uma partida no
interior; parece-me significativo que esta realizou-se antes dos confrontos contra os
“grandes” da capital. Esta disputa, que podemos considerar como estréia da equipe,
ocorreu visto o Palestra Itália não encontrar adversários na cidade e por não querer
disputar jogos no futebol “varzeano”; este não era reconhecido pela APSA e pela
imprensa esportiva. Portanto, este tipo de partida teria uma maior legitimidade perante
o grupo em que a associaço desejava ser aceita, mas, a partir do momento que
encontrou equipes grandes dispostas a enfrenta-lo, o Palestra Itália abandonou os
jogos fora da capital.
Em 1916, o quadro era diverso. Com a disputa do campeonato, a preocupaço do
Palestra Itália buscava conseguir mais adeptos no grupo italiano e propõe-se a sair
pelo interior do estado em busca do reconhecimento deste grupo, que contava já com
um grande contingente nas lavouras de café paulistas.
Mas a tentativa de ser reconhecido entre as grandes equipes da capital não fora
deixada de lado, como atestam os dois amistosos realizados contra o Ypiranga e o
Palmeiras, e numa notícia publicada em 21/11 no OESP com o seguinte texto:

18 – Apesar de OESP afirmar que a partida era muito aguardada e ter até mesmo anunciado a viagem da
equipe para Santos, posteriormente não publicou o resultado da partida.
19 – As partidas realizadas contra o Black Team de Campinas foram realizadas em 23/7 e 10/12, a
segunda partida realizada em Campinas, em que OESP não noticiou o resultado da partida,
provavelmente foi em retribuiço a primeira partida realizada em São Paulo.

O PAL ESTR A I TÁ LIA E SU A T R AJ ET Ó R IA : AS SO C IA T IVI SM O E ET N IC ID AD E – 10
“ Por motivo da brilhante victoria ante-
hontem alcançada pelo C.A. Paulistano, que
alcançou o primeiro lugar, entre as equipes filiadas
á APSA, que disputam o campeonato deste ano, a
directoria do Palestra Itália Italia resolveu
oferecer um copo d’agua, em homenagem a
veterana sociedade sportiva, hoje as 20 horas, em
sua sede social.
O presidente do Palestra Itália Italia
convidou hontem o sr. dr. Antonio Prado Junior,
presidente do C.A. Paulistano, para assistir a
homenagem, que vae ser prestada a esta
associaço, tendo s. s. agradecido a gentileza e
prometido comparecer.”
Como podemos ver, o Palestra Itália continuava com sua estratégia de inserço
entre os grandes clubes do futebol paulistano; desta vez, organizara uma recepço em
homenagem ao campeão daquele ano, a equipe de maior influência dentro da APSA e
que mais congregava integrantes da elite da cidade.
Um fato relevante neste período que pode nos indicar a relaço entre o Palestra
Itália e a sociedade paulistana é a pouca atenço que lhe foi dada pelo OESP. Muitas
vezes o jornal deixou de publicar a escalaço da equipe em, pelo menos, seis
oportunidades. Nestes jogos publicavam a escalaço do adversário, enquanto que a do
Palestra Itália era ignorada; o caso que mais chama a atenço é o da partida contra a
equipe de Caçapava. Nesta matéria podemos constatar o descaso do periódico com a
associaço; em um jogo que aparentemente o Palestra Itália seria a fonte da notícia, o
órgão da imprensa privilegia uma equipe do interior, de menor expressão, pelo menos
se pensarmos em relaço aos interesses dos leitores da capital, principal centro de
circulaço do periódico.
1917
O ano de 1917 representou uma profunda mudança no caráter do Palestra
Itália, pois este deixou de ser um mero participante do campeonato para passar a
disputar em igualdade de condiçes o título do torneio. Importante lembrar que este
era somente o segundo ano em que a equipe participava do campeonato da APSA.
Neste ano as duas entidades organizadoras do futebol da cidade, a APSA e Liga
Paulista de Football (LPF)20 fundem-se sob a denominaço da primeira, a fim de

20 – A LPF foi a primeira entidade, fundada em 1901, que reuniu os primeiros clubes de futebol da cidade
de São Paulo, com o objetivo de representa-los e organizar um campeonato anual entre as cinco equipes
de “primeira linha” do futebol paulistano, que no período eram: o São Paulo Athletic Club, a
Associaço Athletica Mackenzie College, o Sport Club Internacional, o Sport Club Germânia e o Clube
Athletico Paulistano.

O PAL ESTR A I TÁ LIA E SU A T R AJ ET Ó R IA : AS SO C IA T IVI SM O E ET N IC ID AD E – 11
organizarem um único campeonato de futebol na cidade. Com isso, juntam-se aos
grandes clubes da cidade duas equipes que, em 1916, disputaram o torneio organizado
pela LPF; o S. C. Corinthians Paulista e o S. C. Internacional. Portanto, a equipe de
maior ligaço com as classes populares começou a participar do campeonato da APSA o
Corinthians.
Logo no início do certame, o Palestra já demonstrava uma melhora técnica em
sua equipe, em comparaço com o ano anterior. OESP, no dia 20/4, noticiava sua
estréia no torneio, que estava marcada para o dia posterior numa partida contra o S. C.
Internacional e, como podemos constatar com a escalaço, a base étnica era um dos
seus diferenciais. Neste primeiro jogo, vencido pelo Palestra por 5 a 1, a equipe atuou
com a seguinte formaço:
Flosi
Bianco e Grimaldi
Picagli, Bertolini e Fabbi
Gaetano21, Ministro, Ettorre, Orlando e Martinelli.
Este time seria a base do Palestra no decorrer do campeonato de 1917, com
algumas mudanças, provavelmente ocasionadas por contusão ou suspensão de
jogadores, em algumas partidas. Com estes jogadores, o Palestra iniciava sua
campanha que no início foi triunfante; além da vitória sobre o S. C Internacional,
empataria com o Paulistano por 2 gols e, venceria o Corinthians por 3 a 0. A primeira e
única derrota sofrida pelo Palestra naquele ano ocorreu contra o Palmeiras por 1 a 0,
no dia 28/5, e somente não levantou o título daquele campeonato por uma série de
empates frente ao Paulistano, São Bento (2 vezes), Palmeiras (no jogo do returno22) e
Mackenzie.
Neste ano, o C.A. Paulistano sagrar-se-ia bicampeão23 da cidade de São Paulo,
apesar de nos confrontos diretos com o Palestra não ter conseguido sobressair-se. Além
do empate citado, as duas equipes enfrentaram-se por mais duas vezes: no returno do

A APSA nasceu de uma cisão ocorrida na LPF em 1913, em torno da questão do acesso de
indivíduos das classes trabalhadoras como integrantes das equipes da liga. O grupo a favor de uma
rigorosa seleço entre as equipes filiadas e aquelas que pleiteavam seu ingresso na entidade, com a
finalidade de impedir a atuaço de indivíduos advindos das classes menos abastadas da sociedade. Este
grupo comandado pelo C. A. Paulistano, aproveitando-se de um incidente menor sobre o aluguel do
Velódromo (estádio onde eram realizadas as partidas do campeonato da liga) retira-se da LPF para
fundar a APSA. Apesar do C. A. Paulistano afirmar que a causa do abandono seria um
desentendimento com a LPF sobre o problema do valor da locaço, é muito significativo que esta
associaço desligue-se da entidade dirigente do futebol paulistano, justamente, no ano em que esta
aceita como membro uma associaço de nítida origem popular, o Sport Club Corinthians Paulista.
21 – Muitas vezes o nome deste jogador, durante este ano, apareceu grafado como Caetano.
22 – Returno refere-se a fase do campeonato onde todas equipes enfrentam-se novamente. Normalmente
um campeonato de futebol é dividido em duas fases, turno e returno; na primeira fase todos os
participantes enfrentam-se e na segunda fase os mesmos jogos repetem-se com o mando de jogo
invertido.
23 Como foi apontado o C. A. Paulistano passava pelo período onde alcançou as maiores glórias, onde
conquistou o único tetracampeonato da história do futebol paulista nos anos de 1916, 17, 18 e 19.

O PAL ESTR A I TÁ LIA E SU A T R AJ ET Ó R IA : AS SO C IA T IVI SM O E ET N IC ID AD E – 12
campeonato (26/8) e numa partida beneficente no início do ano (18/3). Nos dois
encontros o Palestra Itália saiu vencedor; 3 a 2, no jogo em benefício do “Comitê
Feminino Italiano Pró-Pátria”, e 1 a 0 na partida válida pelo campeonato da APSA.
Como podemos ver, o Palestra não abandonava os jogos beneficentes,
continuando a realizá-los, na maioria das vezes, em prol de alguma causa ligada à
pátria de origem de seus representados, a Itália. Além do embate contra o C.A.
Paulistano, a equipe atuou (é muito provável que fosse o organizador destes eventos)
em mais quatro partidas beneficentes em 1917, sendo apenas uma delas em prol de
uma entidade estritamente brasileira.
Segundo OESP, em notícia publicada em 24/3, a associaço realizaria dois jogos
em benefício do “Comitê Italiano Pró-Pátria” de Santos naquela cidade, contra as
equipes do Brasil F. C. e o Torino F. C.. Em outubro, o mesmo jornal anunciava a
realizaço de um festival futebolístico no campo do Bosque da Saúde, visando à “Cruz
Vermelha Brasileira” e “Cruz Vermelha Italiana”; este festival consistiria em dois jogos
entre os primeiros e segundos times do Palestra e do S. C. Internacional. E, por último,
em 11/10 anunciava a realizaço de um jogo direcionado à “Associaço dos Chronistas
Sportivos”, entre o C.A. Paulistano e um time composto de jogadores do Palestra
Itália e do S. C. Corinthians Paulista.
Nesta última partida, há um fato relevante o time combinado
Palestra/Corinthians foi formado para substituir um time carioca (América ou
Flamengo, segundo a notícia) que não poderia vir a São Paulo para a disputa. A
relevância está em que, na primeira partida amistosa que o Palestra disputava em
benefício exclusivo de uma entidade brasileira, a sua participaço não era enquanto
associaço italiana, mas somente como equipe gabaritada a fornecer alguns jogadores a
um time formado na última hora para substituir outra que não pudera atender ao
convite dos organizadores do evento.
Neste ano, o Palestra também continuava realizando jogos com equipes de
cidades do interior do estado de São Paulo, mas passa a convidá-los para jogarem na
capital. Em 1917 a associaço realiza quatro partidas contra equipes do interior, sendo
duas delas nas cidades dos adversários e duas na própria capital.
A diferença para os outros anos aparece primeiro em uma matéria publicada no
dia 29/5 anunciando a realizaço de um jogo no campo da Floresta (capital) entre o
Palestra Itália e o Comercial F. C. de Ribeirão Preto (1 a 1) para o dia seguinte e,
dando boas referências para a equipe interiorana. Em 8/12 outra notícia sobre a vinda
da A. A. Caçapavense para disputar contra o Palestra Itália (vitória palestrina por 6 a
3), no dia seguinte, no campo da Floresta, ressaltando que seria a primeira vez que uma
equipe de Caçapava viria a São Paulo.
Estas duas matérias denotam a mudança de caráter do Palestra Itália. Esta
associaço, depois de passar por praticamente um ritual de iniciaço no futebol
paulistano, começava a ter gabarito e poder para organizar e convidar equipes do

O PAL ESTR A I TÁ LIA E SU A T R AJ ET Ó R IA : AS SO C IA T IVI SM O E ET N IC ID AD E – 13
interior do estado a fim de disputarem “matchs” na capital em estádios utilizados pelos
grandes times do futebol paulistano24.
Um fato que neste ano começa a aparecer com maior clareza é a parcialidade da
imprensa desportiva25, que cobria o desenrolar diário do futebol paulistano. Muitas das
matérias selecionadas continham uma parcialidade implícita em suas linhas; a
imprensa, na maior parte das vezes, ainda mais quando analisamos o conjunto das
notícias sobre o Palestra Itália, menosprezava ou não dava a devida ênfase aos feitos
esportivos da associaço, principalmente quando o Palestra enfrentava os “grandes”.
Em 1916 já apareciam indícios deste seu comportamento, com a não publicaço de
escalaçes dos times palestrinos, enquanto na maioria das vezes publicava os das
outras equipes; neste ano, em muitas partidas, a imprensa somente publicava a
escalaço do adversário do Palestra. Mas poderia haver razão em tal procedimento,
pois o Palestra era somente um mero participante do campeonato, não sendo uma das
equipes com chances reais de alcançar o título paulistano.
Em 1917, o fato se repete demonstrando que isto não era casual ou se devia à
baixa qualidade técnica do Palestra Itália, visto a equipe realizar uma ótima
campanha, alcançando o vice-campeonato e perdendo somente uma única partida
durante o ano inteiro.
Ao todo, em nove oportunidades, OESP deixa de publicar a escalaço da equipe
palestrina; afirmo isto, pois versavam sobre a realizaço de nove jogos envolvendo o
Palestra Itália e, nestas mesmas notícias, foram publicadas as escalaçes dos
adversários. Neste momento a que mais chama atenço é a publicada em 4/11 sobre o
embate que terminou empatado em 1 gol entre Palestra Itália e Mackenzie. A matéria
anunciava a partida e somente publicava a escalaço do Mackenzie, apesar deste jogo
ser decisivo, cabe ressaltar que o Palestra Itália disputava a primeira colocaço do
certame e o Mackenzie ocupava a última colocaço.
Outra notícia que nos dá uma boa idéia da parcialidade da imprensa esportiva
paulistana foi publicada em 27/8 sobre a partida vencida pelo Palestra Itália contra o
C.A. Paulistano. Após tecer elogios ao jogo, relata-o de uma forma bem enviesada, com
a maior parte referindo-se a jogadas feitas pelos atletas do Paulistano, só citando a
presença de jogadores palestrinos na jogada do gol que decidiu a partida; todos os
elogios dirigiram-se a estes como o goleiro, Rubens Salles, que, segundo o jornal,
garantira o pequeno placar e a Mário Andrada chamado de “menino de ouro”. Outro
destaque, foi quando a matéria referia-se aos jogadores do Paulistano chamados pelo
nome inteiro (nome e sobrenome), enquanto que as poucas referências aos palestrinos
eram feitas pelo sobrenome demarcando bem a origem italiana.
Ora, como um relato de uma partida de futebol deixa em segundo plano os
jogadores do time vencedor e as jogadas realizadas por estes?
Para termos uma noço mais exata desta parcialidade descrevo o relato do jogo
vencido pelo Palestra Itália, por 6 a 1, contra o fraco time do Ypiranga em 26/11, e que
lhe garantiria o vice-campeonato:

24 – O campo da Floresta junto com o Velódromo eram os estádios em que disputavam jogos válidos pelo
campeonato da APSA.
25 – Esta parcialidade foi encontrado em todos os periódicos pesquisados.

O PAL ESTR A I TÁ LIA E SU A T R AJ ET Ó R IA : AS SO C IA T IVI SM O E ET N IC ID AD E – 14
“ Com o match realizado hontem na Floresta
entre o Palestra e o Ypiranga, encerrou-se a
temporada official de ‘football’.
O Palestra fechou o campeonato com chave
de ouro, pois consegui derrotar o seu antagonista
pelo elevado score de 6 ‘goals’ a 1.
Do ‘team’ alvi-negro (Ypiranga) apenas
Formiga e Estrella jogaram bem, notadamente o
primeiro, que muito se esforçou para attenuar a
derrota de sua ‘équipe’.
O ‘foward’ ipiranguista fez diversas
investidas perigosas contra o rectangulo italiano,
mas não surtiram o desejado effeito pela falta de
companheiros que o ajudassem.
A defesa do Ypiranga esteve indecisa e sem
firmesa, compromettendo bastante a acço do
‘Kepper’. Este tambem não agiu com precisão.
Faltou-lhe a devida calma e, alem disso, o guarda
alvo do ‘team’ de Formiga fez as suas costumeiras
piruetas e brincadeiras proporcionando ensejo aos
adversarios para augmentarem o numero de
pontos.
Os ‘halves’ esfroçaram-se para se oppor ao
ataque do ‘team’ tricolor26 (Palestra Itália).
O Palestra apesar da victoria que obteve não
desenvolveu jogo assombroso.
Alguns elementos do ‘team’ tricolor fizeram
jogo pesado.
Picagli não nos agradou hontem, pois fez
jogo para archibancadas.
Flosi como sempre defendeu galharadamente
seu posto, fazendo belas tiradas. (…)”
Vemos que, em nenhum momento, o jornalista que descreve o jogo afirma que o
Palestra estava tornando-se o vice-campeão do certame, e que, apesar de elogiá-lo no
início da matéria, centra seus comentários no time do Ypiranga. Independente do
placar elástico, o jornalista dedica boa parte da matéria a jogadores ipiranguistas,
destacando os esforços destes para conter o Palestra Itália e, quando refere-se a
atuaço de nossa associaço, ataca afirmando que “apesar da victoria que obteve não
desenvolveu jogo assombroso”. Ainda critica alguns jogadores palestrinos e deixa

26 – O Palestra Itália era conhecido como o “team tricolor” devido ao seu uniforme, que era composto
de camisas verdes, com gola e punhos vermelhos, calçes brancos e meias brancas.

O PAL ESTR A I TÁ LIA E SU A T R AJ ET Ó R IA : AS SO C IA T IVI SM O E ET N IC ID AD E – 15
entender que o placar deveu-se à atuaço do goleiro do Ypiranga “(que) fez as suas
costumeiras piruetas e brincadeiras proporcionando ensejo aos adversarios para
augmentarem o numero de pontos”. Portanto, como vemos, mesmo quando o Palestra
Itália conseguia um placar elástico contra um time de menor expressão como o
Ypiranga, segundo a imprensa, não desenvolvia “jogo assombroso” e a vitória não era
conseguida com seus próprios méritos.
Retomaremos a questão da parcialidade da imprensa esportiva mais adiante no
texto.
Mas a matéria que mais se destaca, no conjunto das notícias selecionadas no ano
de 1917, é a publicada em 4/11, que versa sobre uma questão que até aquele momento
encontrava-se nas entrelinhas da cobertura jornalística. Nesta data é publicada no
OESP um artigo com o seguinte texto:
“O PALESTRA ITÁLIA E O CAMPEONATO DE
“FOOTBALL”
O nosso numero de hontem sahiu uma secço
livre, em que, ironicamente, se fazia alusão a uma
chronica sportiva de um dos collegas da manhan.
O collega que é italiano, na apreciaço, considerou
o Palestra Itália, ‘team’ formado de filhos de
italianos, forte e disciplinado. Foi o quanto bastou
para que um ‘sportman’ não concordando com
aquelle juizo, fizesse tal pilheria – pilheria sim,
porque outro nome não pode ter.
É lamentavel que se envolva nas entrigas
sportivas, sentimentos os mais nobres, como é o
patriotismo, nesta época o mais sagrado.
É claro que não aplaudimos semelhantes
pecuinhas, rutos da rivalidade entre clubs, que
disputam os torneios em São Paulo.
Mas, pela natureza da publicaço verifica-se
que aquillo não é mais que uma brincadeira, que
bem merece o nome de mau gosto. Não
acreditamos que houvesse o intuito de ferir os
italianos. No ‘football’, em todos os tempos o
antagonismo entre as sociedades provoca desses
desabafos intempestivos. A nossa educaço
sportiva, infelizmente não chegou ainda a um grau
de perfeiço que era para desejar. De sorte que,
estes e outros incidentes, inoffensivos no fundo,
não podem, por emquanto, molestar a quem quer
que seja. O regionalismo, no sport, existe só para
reduzidos numero de pessoas, que alias não tem
responsabilidades effectivas na direço das

O PAL ESTR A I TÁ LIA E SU A T R AJ ET Ó R IA : AS SO C IA T IVI SM O E ET N IC ID AD E – 16
entidades de ‘sport’. E tanto não existe que as
associaçes, tradicionalmente brasileiras, dão
ingresso a estrangeiros. Se tem sido assim até aqui,
agora, então, não ha absolutamente motivos para
desconfianças. E ainda mais com os italianos.
Hoje somos todos brasileiros e italianos,
francezes, inglezes e portuguezes, alliados, pois
que combatemos por uma só causa. Por
conseguinte, não se deve dar importância
exaggerada a esses factos alias naturaes em se
tratando de coisas do ‘football’.”
Percebemos neste artigo, o Palestra Itália ser considerado uma equipe de
estrangeiros por algumas pessoas. Uma simples nota elogiosa à associaço provocou a
reaço de um leitor, que mandara através de uma carta ofensas ao jornalista e ao
Palestra Itália, como dá a entender o texto27. Há dois fatos que merecem destaque: a
publicaço de uma carta que ofendia o Palestra Itália e o grupo italiano da cidade de
São Paulo, e a resposta a este manifesto num local mais visível do jornal28.
Apesar de afirmar que a opinião de um leitor não era compartilhada pelo
periódico, é significativo que esta tenha sido publicada, com o jornal logo defendendo-
se de possíveis acusaçes de discriminaço contra o grupo italiano da cidade de São
Paulo.
O periódico deixa entender que a manifestaço era individual e que se devia a
um “antagonismo entre as sociedades (que) provoca desses desabafos intempestivos”,
naturais em se tratando das manifestaçes esportivas. E, como vimos, na cobertura
esportiva, com especial atenço aos fatos relacionados ao Palestra Itália do próprio
jornal, os antagonismos entre as sociedades eram vislumbrados em suas páginas
diárias. Com a diferença que neste episódio a questão da nacionalidade torna-se mais
visível, pois OESP marcava sempre as origens italianas da associaço, mas quando
menosprezava seus feitos, fazia suas críticas no terreno da técnica e da competência
esportiva.
Portanto, nesta passagem e em outras do jornal, com maior intensidade, aflora a
discriminaço contra o imigrante italiano, presente nas colunas esportivas de OESP e
da imprensa paulistana, mesmo encoberta, quando o foco das atençes era a equipe de
futebol representante do grupo de origens estrangeiras. E, como o próprio artigo
afirma, 1917 não seria o momento adequado para o antagonismo de nacionalidades em
território brasileiro, ainda entre duas naçes aliadas no cenário internacional.

27 – Como o texto afirma havia sido publicado no dia anterior, uma carta de um leitor na “secço livre”
da ediço matutina. Apesar de procurar esta carta nas ediçes dos dias anteriores do jornal não
consegui localiza-la, julgo não ter tido sucesso pois as coleçes arquivadas no “Arquivo do Estado de
São Paulo” e na “Biblioteca Mário de Andrade” guardam as ediçes principais de OESP.
28 – Sem dúvida a seço esportiva apesar de não ser a principal do periódico, deveria ter mais leitores
que a seço onde publicava-se cartas de todos os tipos de leitores e pequenas propagandas.

O PAL ESTR A I TÁ LIA E SU A T R AJ ET Ó R IA : AS SO C IA T IVI SM O E ET N IC ID AD E – 17
1920
O levantamento realizado para este ano apresenta uma peculiaridade, por ser
quando o Palestra Itália atinge seu primeiro título dentro do futebol “oficial”. Por
outro lado, nesse ano a pesquisa foi realizada em dois órgãos da imprensa paulistana,
“O Estado de São Paulo” (OESP) e “A Platéa” (AP).
A decisão de estender a pesquisa a mais um periódico ocorreu, pela necessidade
de constatar se OESP, em sua cobertura do cotidiano do Palestra Itália, diferenciava-se
de outros órgãos da imprensa. A pesquisa realiza com AP tem como objetivo a
comparaço de dois órgãos da imprensa paulistana do período.
Para fazermos esta comparaço, utilizarei como fonte principal dos dados
históricos da associaço para 1920 a cobertura jornalística realizada pela AP. Os dados
levantados no OESP serão utilizados conforme aparecem grandes discrepâncias entre a
forma das notícias destes dois órgãos para um mesmo fato. Devemos levar em conta
que, no geral, os conteúdos são idênticos nos dois jornais, pois estavam cobrindo o
desenrolar diário do movimento futebolístico paulistano, e nossa associaço era parte
integrante deste contexto.
Em 1920 o Palestra Itália alcançou seu objetivo tornar-se um dos grandes do
futebol paulistano, conseguido através do título paulista. Desde de sua fundaço, como
demonstrei, a associaço desejava ser considerada uma das forças desse esporte em São
Paulo, mas isto só seria possível com o título do campeonato da APSA. Antes deste ano
o Palestra já havia demonstrado seu valor técnico com os vice-campeonatos de 1917 e
1919, mas era necessário, para a sua afirmaço perante as outras equipes, o título de
campeão. Esta glória, apesar de sua importância, não igualaria a associaço às equipes
da elite paulistana, devido as suas origens étnicas; isto fica claro na cobertura
jornalística deste ano e na de 1933, quando perdurou a parcialidade e o menosprezo aos
seus feitos.
A diferença de tratamento dada pela imprensa esportiva atribuo às origens
italianas da associaço, que levava uma multidão de imigrantes italianos e seus
descendentes a assistirem jogos do Palestra Itália. Era uma invasão das classes menos
abastadas de um local até então dominado pela “alta sociedade”, ocasionando um
desconforto da elite não acostumada a desfrutar do mesmo espaço físico com as classes
trabalhadoras (SEVCENKO, 1992). Isto fica claro nos relatos das partidas que levavam
um número considerável de espectadores; a multidão causava mal estar na classe que
ainda comandava os destinos do futebol paulistano, como poderemos ver nestas
passagens:
“Ausencia de Bianco, por força da suspensão que
soffre, não poude participar da luta, o excessivo
calor, verdadeiramente acabrunhante, as
asphixiantes nuvens de po da Avenida Agua
Branca, o costumeiro pessimo serviço da
Canadense, nada disso impediu que o campo do

O PAL ESTR A I TÁ LIA E SU A T R AJ ET Ó R IA : AS SO C IA T IVI SM O E ET N IC ID AD E – 18
Pq. Antarctica se enchesse a valer. Era que jogava
o Palestra” (OESP, 4/10/20)
“ Appello ao publico – Os dois clubs
disputantes, animados pelo natural desejo de que a
luta se desenrole como a maior cordialidade e
cavalheirismo, recommendam ao publico um
comportamento exemplar á altura dos foros de
civilisaço do povo paulista. Para a boa
manutenço da ordem é preciso que todos
observem estrictamente as presentes instruçes, e
prestem a devida atenço aos socios de ambos os
clubs escalados em commissão para coadjuvarem
as autoridades na manutenço da ordem.
Recomenda-se muita calma aos espectadores.
Que cada um mesmo se expanda na justa medida, e
sem excessos do natural enthusiasmo pelos belos
gestos de seus favoritos, ao jubilo pela victoria do
club preferido; mas que respeite e honre o
adversario não menos nobres e gloriosos,
lembrando-se que são todos amadores que
praticam o esporte pelo prazer e satisfacço do
esporte, para o engrandecimento e
desenvolvimento da raça.
Que todos acatem religiosamente as decisões
dos arbitros, esportistas distinctos que emprestam
gentilmente seus concurso para um fim nobre: que
todos respeitem as medidas e resoluçes das
autoridades da entidade directora dos esportes
paulistas. (Seguem as instruçes detalhadas)”
(OESP, 11/12/20)
“Aquelle logradouro apesar de ser um dos maiores
da Paulicéa, encheu-se literalmente, podendo ser
orçada em cerca de 20.000 pessoas a assitencia que,
resignadamente supportando a poeira da avenida
Agua Branca e os apertos dos bondes da Light, a
elle se abalou (…)” (AP, 6/9/20)
Estas passagens demonstram que o futebol em 1920 não era mais uma
modalidade esportiva dominada pela elite da cidade; multidões de aficionados
dirigiam-se aos “grounds” para acompanharem seus “teams”. A imprensa que
acompanhava o desenvolvimento esportivo ainda não estava costumada a este fato,
tanto que em muitas análises de jogos fazia afirmaçes do tipo:

O PAL ESTR A I TÁ LIA E SU A T R AJ ET Ó R IA : AS SO C IA T IVI SM O E ET N IC ID AD E – 19
“Afflui uma grande concorrencia ao Parque
Antarctica, para apreciar a partida entre o
Internacional e o Palestra. Todavia, nada
justificava, essa curiosidade, pois era quasi certa a
victoria do ultimo (…)”
Isto era comum neste período, pois as análises das partidas eram pautadas,
somente, pelo nível técnico dos participantes; com isso, a imprensa esperava grande
público somente em jogos onde o equilíbrio técnico predominasse. No exemplo acima,
a falta de justificativa para a grande assistência era o desequilíbrio entre as duas
equipes; o Internacional fazia péssima campanha no campeonato daquele ano e o
periódico dava a entender que a vitória palestrina era dada como certa entre os que
acompanhavam o futebol, fato que provocaria desinteresse no público. Para o jornal, o
espectador ideal seria o amante do futebol e não o aficionado por alguma equipe, pois
este não estaria “á altura dos foros de civilisaço do povo paulista”, praticando
atitudes que estariam em desacordo com a prática “pelo prazer e satisfacço do
esporte, para o engrandecimento e desenvolvimento da raça”.
A imprensa dava a entender que a equipe possuidora de um maior número de
aficionados era o Palestra Itália, certamente era composto de imigrantes italianos e
seus descendentes, como eram suas diretorias29 e seus jogadores. Portanto, o Palestra,
por ser uma equipe com fortes raízes nas classes menos abastadas, seria o responsável
pela invasão das arquibancadas por indivíduos oriundos destas classes. Ele era um
representante diferente na esfera esportiva paulistana; esta equipe havia introduzido
“elementos” 30 distantes dos setores nobres da sociedade paulistana no campo de jogo,
atuando com um time repleto de “italianinhos”31; também motivava uma imensa legião
de “torcedores”, oriundos de bairros operários, a acompanharem seus jogos em locais
até então restritos à uma “selecta assitencia”.
1920 seria o ano destes “intrusos” ganharem destaque no futebol paulistano; um
time com a seguinte escalaço alcançaria um título restrito à elite paulistana.

29 – Em 16/1/20 era noticiado a eleiço da diretoria do Palestra: Presidente, Menotti Falchi; 1o vice,
Davide Picchetti; 2o vice, Alberto Sironi; 1o secretário, Martino Frontini; 2o secretário, Enrico Belli; 1o
tesoureiro, Giuseppe Perrone, 2o tesoureiro, Luigi Izzo; Mordomo (sic), Luigi Rocco; diretores
esportivos, Angelo Cristofaro, Carmine Pastore, Enrico de Martino, Ernesto Giuliano, Antonio
Vaudagnatti, Claudio Bosisio, Dr. Matteo Pannain, Lorenzo Alessandri e Luigi Cervo.
30 – A palavra “elementos” é emprestada de uma notícia de 16/5 que discorria sobre a rodada daquele
dia e ao anunciar as diversas escalaçes utilizou a seguinte expressão: “São esses os elementos do
Palestra (…)”, enquanto que para as outras equipes que atuariam naquele dia refere-se da seguinte
maneira: A. A. Palmeiras, “Estes são os quadros do Palmeiras: (…)”; C.A. Paulistano, “O primeiro
quadro do Paulistano (…)”; A.A. Mackenzie “Jogarão pelo Mackenzie (…)”
31 – Esta expressão era largamente utilizada em São Paulo como forma pejorativa para a denominaço
dos imigrantes italianos, principalmente aqueles da classe operária, como indica Antônio Alcântara
Machado em suas obras que retratavam o cotidiano destes imigrantes.

O PAL ESTR A I TÁ LIA E SU A T R AJ ET Ó R IA : AS SO C IA T IVI SM O E ET N IC ID AD E – 20
Primo
Bianco e Pedretti
Bertolini, Picagli e Fabbi
Gaetano, Ministro, Heitor, Imparato e Martinelli32
Este ano fora brilhante para o Palestra, sendo, somente, derrotado em duas
oportunidades por placares apertados e contra duas tradicionais equipes da cidade — o
Corinthians e o Paulistano. Os únicos resultados inesperados foram os empates com o
Ypiranga e Santos, mas não atrapalharam o caminho do título; entretanto provocaram
um final dramático marcado por alguns incidentes envolvendo o Palestra.
O final do campeonato de 1920 assume aspectos dramáticos, pois o Palestra e o
Paulistano realizariam seu último jogo no torneio; a equipe palestrina necessitava de
um empate para se tornar campeã e o Paulistano, que lutava por um título inédito no
futebol de São Paulo, o pentacampeonato, precisava de uma vitória que provocaria um
jogo extra entre as duas equipes para a decisão do título. Este fato ocorreria com a
vitória do clube dos Jardins33 por 1 a 0, no dia 13/12, ficando marcado para o dia 19/12
o jogo desempate, ganho pelo Palestra por 2 gols a 1.
Estas partidas foram cercadas de grande expectativa, pois os dois grandes rivais
da cidade de São Paulo repetiriam, um ano depois, a disputa pelo título. Em 1919, o
Paulistano sagrara-se tetracampeão destacando-se frente ao Palestra, derrotado pelo S.
C. Corinthians.
A cobertura da imprensa para este final de campeonato acompanhava todos os
passos e preparativos das equipes. No dia posterior ao jogo AP chega a dedicar duas
páginas inteiras à cobertura da partida; com os dias que antecederam a peleja
ressaltando a importância do jogo. Um artigo se destaca entre as matérias do OESP,
versando sobre a decisão da APSA em marcar o desempate para o campo do Palmeiras
e, principalmente, por ter dobrado o preço do ingresso.
Nesta matéria é ressaltado o valor das competiçes esportivas e criticava o
aumento que impediria algumas pessoas de assistir ao espetáculo; mais uma vez o
jornal contrariava sua posiço elitista:
“(…) Nós vivemos numa democracia e numa
democracia na qual a educaço physica é
necessidade imperiosa, devendo ser intensificado e
generalisado o mais possivel o bom exemplo das
competiçes esportivas. Por isso, toda e qualquer
tentativa para aristocratizar o esporte, para
‘seleciona-lo’, favorecendo os que dispõem de
melhores meios de fortuna é summamente odiosa,

32 – Esta escalaço refere-se ao time que enfrentou o Palmeiras no dia 21/11, antepenúltimo jogo do
Palestra antes de sagrar-se campeão.
33 – Os Jardins é um conjunto de bairros nobres da cidade de São Paulo até os dias atuais, sendo o Jardim
América o bairro onde localizava-se a sede do C. A. Paulistano (local onde até hoje se encontra).

O PAL ESTR A I TÁ LIA E SU A T R AJ ET Ó R IA : AS SO C IA T IVI SM O E ET N IC ID AD E – 21
resulta prejudicial aos proprios interesses do
esporte (…)” (OESP, 17/12/20)
A imprensa desaprovava sempre as deliberaçes elitistas das entidades
dirigentes, principalmente OESP que balizava sua linha editorial por um peculiar
liberalismo(CAPELATO, 1980)34. AP nem se posicionava perante estas questões. A
pesquisa realizada revelou que a imprensa preferia um elitismo velado a uma posiço
nítida contra a participaço destes elementos no esporte oficial. Pode parecer
contraditório afirmar um elitismo para quem reitera que o esporte deveria ser
“intensificado e generalisado”, mas parece provável que a imprensa se posicionava a
favor de uma prática desportiva generalizada, não colocando em risco a hegemonia da
elite nesta esfera. Esta idéia parece confirmar-se com a posiço de OESP contra a
introduço do profissionalismo no futebol.
Mas, retornando ao campeonato de 1920, o Palestra sagrava-se campeão sem o
apoio da imprensa, que mantinha suas posiçes parciais desfavoráveis ao time
palestrino. Neste ano acaba a prática ocorrida nos anteriores de não publicar sua
escalaço enquanto era anunciada a de seu adversário. Entretanto, a parcialidade
continuava clara nos relatos das partidas35. Em 6/9, quando da cobertura do jogo com o
Corinthians, onde este saiu vitorioso, OESP chega a afirmar que o Palestra estava em
decadência, por sua derrota para uma das tradicionais equipes da cidade, vitória esta
por diferença de apenas 1 gol.
“ Apenas do meio para o fim do primeiro
período do jogo, os elementos do Palestra,
tomados de brio, esforçaram-se por melhorar, a
sua inferioridade techinica, reagindo
mediocremente, mas sem orientaço intelligente.
(…)” (OESP, 6/9/1920)
Como podemos ver esta seria a tônica dos relatos das partidas em que o Palestra
participava, proporcionando “pérolas” jornalísticas do tipo:
“Logo no primeiro minuto de jogo, Ministro,
tentando passar a esphera a seu companheiro de
linha, o fez com tanta ‘infelicidade’ que, a bola,
tomando uma direcço diversa da que lhe
pretendia dar aquelle peão palestrino, foi ter,
inesperadamente ao posto confinado á guarda de

34 – O capítulo 2 de minha dissertação, que trata da imprensa paulistana e sua cobertura esportiva, discute esta
questão.
35 – Há uma única notícia onde a atuaço do Palestra Itália era francamente elogiada. Em 27/7 AP
publica uma notícia sobre a vitória palestrina sobre o selecionado carioca (arqui-rival dos paulistas) por
5 a 1. Credito estes elogios ao fato de o Palestra Itália neste jogo estar representando a cidade de São
Paulo contra o grande adversário paulista.

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Arnaldo. O arqueiro alvi-rubro que, como não
teve tempo de colocar-se convenientemente,
permitindo, que se marcasse o primeiro e único
ponto dos commandados de Bianco (…)” (AP,
16/8/1920)
Mas um fato no campeonato deste ano mostrava a força de nossa associaço; no
jogo contra o S.C. Corinthians, em que o Palestra fora derrotado por 2 a 1, aconteceram
alguns incidentes, assim relatados:
“ Assegurado assim a victoria do quadro
capiteneado por Neco (Corinthians), que jogou
assombrosamente, o conjunto vice-campeão da
cidade (Palestra), elementos do Palestra, não
tardaram a manifestar o seu desagrado. Neco,
quando Primo, de posse da bola, pretendia defender
seu posto, ‘entrou’ contra esse guardião, procurando
impedir, a todo transe a devoluço da esphera ao
centro do campo. Nunca praticasse tal façanha
aquelle magnifico dianteiro, pois que a mesma
quasi lhe valeu ser lynchado pelos seus adversarios,
em pleno campo. Deu começo a ‘scena’, justamente
quem nunca, se pensara pudesse assumir semelhante
attidude: Bianco, o consagrado zagueiro paulista.
Por traz da ‘victima’, aplicou-lhe formidavel ponta-
pe, por entre as pernas, e, a seguir ‘parodiando’ o
gesto do membro inferior, dá-lhe um socco na fronte.
Pedretti e Picagli intervêm, apoiando o seu capitão,
em tudo e por tudo. Realmente desagradavel esse
incidente, para o bom nome do futebol paulista.”
(OESP, 6/9/1920)
Esta briga no gramado geraria problemas extra-campo que quase paralisariam o
torneio; como conseqüncia, tivemos a prisão de um de seus dirigentes, como indica a
notícia de 19/9 que relatava distúrbios frente à sede do Palestra Itália.
Estes incidentes geraram um pedido de licença do campeonato por parte do
Palestra Itália, por não concordar com arbitragens e o tratamento dado a seus
jogadores por outras equipes. Isto se verifica também em outra matéria do dia 19, onde
relatava uma reunião da APSA sobre o “caso Palestra”, em que a associaço defendeu
formalmente seu pedido de licença por 6 meses. Neste artigo há referências de que o
Palestra estaria levando o incidente para a questão da nacionalidade, provavelmente
por se tratar de uma questão onde estaria diretamente relacionado.

O PAL ESTR A I TÁ LIA E SU A T R AJ ET Ó R IA : AS SO C IA T IVI SM O E ET N IC ID AD E – 23
“(…) A licença de seu gremio é irrevogavel. Insiste e
insiste, porque? Não é por pretender desacatar os
demais colligados. O Palestra esta convencido de
que arrastam o assumpto para outro terreno, mais
escabroso, como seja o da nacionalidade.”(OESP,
19/9/20)
Seguindo a linha de raciocínio que o Palestra era uma associaço não bem quista
dentro do futebol paulistano, esta solicitaço de licença poderia ser a oportunidade de
outras equipes, e mesmo a imprensa, vê-la afastada do futebol “oficial”. Mas não foi
isto que aconteceu. A APSA não aceitava o pedido, e a imprensa, mesmo desaprovando
as cenas de violência ocorridas na partida com o Corinthians, também posicionava-se
contra o abandono do campeonato pela equipe.
Esta postura deve-se ao fato do Palestra ser um dos mais populares times do
campeonato, levando multidões aos estádios, e a sua licença poderia significar o
fracasso desta disputa. No mesmo ano, o Santos F. C. havia conseguido uma licença
por discordar das arbitragens, e fora aceita pela APSA. A imprensa chega a afirmar que
o campeonato perderia um de seus melhores times se fosse concedida ao Palestra. Mais
uma vez, em momento agudo, ela se esforça-se para demonstrar imparcialidade, fato
que na cobertura do torneio seria desmentido.
A questão da nacionalidade aparece de uma forma mais contundente neste ano,
mas sem envolver o Palestra diretamente; a associaço e os italianos serviram como
base da argumentaço de OESP sobre o caso. Os times da segunda divisão reclamavam
oficialmente à APSA da fusão do Mackenzie e a Associaço Portugueza de Esportes, e o
periódico posicionava-se a favor desta jogada. Para reforçar seu argumento utilizava o
exemplo do Palestra como modelo a ser seguido.
“Tratemos o caso com calma e serenidade. Se o
boato fosse verdadeiro, não atinamos com
sinceridade o dizemos, com o protesto. Porque da
união, só beneficios poderiam advir para o
Mackenzie, que hoje se encontra quasi
abandonado, sendo, por isso, mesmo, prejudicado
a cada passo. É prejudicado, naturalmente, porque
os fortes gremios, na ancia de progredirem, não se
conformam, e têm lá suas razões, com a
inactividade dos outros. Accusar, por conseguinte,
uma sociedade que procura esteio, afigura-se-nos
ser uma injustiça. Depois, convem ponderar que o
Esporte Club Syrio, da segunda divisão, mesmo
sem atentar para os seus companheiros, pretendeu
aliar-se ao Mackenzie, e não nos conta que
houvesse uma campanha forte contra seus
dirigentes. Pelo contrario: acharam ate uma coisa

O PAL ESTR A I TÁ LIA E SU A T R AJ ET Ó R IA : AS SO C IA T IVI SM O E ET N IC ID AD E – 24
muito seria e muito direita. Porque, então se
investe contra a Associaço Portugueza? Porque
póde ella agitar a questão da nacionalidade? Mas,
santo Deus! – não existe o Palestra, que é a reunião
de todos os rapazes descendentes de italianos?
Não existe o Germania, que está tecendo os seus
pausinhos para de novo disputar o campeonato?
Causa de facto, estranheza essa hostilidade
contra uma associaço nova, é verdade mas que
possue todos os elementos de exito.
Os italianos, os syrios, os alemães, os
inglezes podem congregar-se livremente e até
mesmo influir nos destinos de nossa entidade
maxima; mas os portugueses, mais ligados a nós,
não devem gosar das mesmas regalias. É um
absurdo. É um atentado ao bom senso.
E depois – é preciso que se accentue bem esta
verdade – no esporte não ha, não pode haver
questão de nacionalidade.
Nunca dissemos, nestas columnas, que o
Palestra representava o heroico povo da Italia e
nem tampouco asseguramos que o Syrio
representava a raça intemerta, que luta
denodadamente pelo independencia. Os quadros
desses clubs, queiram ou não queiram certos
individuos idiotas, compõe-se de brasileiros.
Como apontal-os a execraço, ao ridiculo, ao
apupo?” (OESP, 16/10/20)
Apesar do periódico afirmar que “nunca dissemos, nestas columnas, que o
Palestra representava o heroico povo da Italia” o levantamento revelou que esta
relaço sempre esteve presente. O jornal reiterava que a associaço representava os
italianos da cidade ou seus jogadores eram italianos36. E quando a questão da
nacionalidade, como no caso acima, aflorava por algum motivo, o Palestra Itália era
sempre lembrado como exemplo de como se lidar com o problema.
1933
Neste ano, o Palestra Itália já era uma das tradicionais equipes da cidade de São
Paulo, sendo escolhido como objeto para análise a fim de se contrapor, junto com 1942,

36 – Em muitas notícias os jogadores palestrinos eram denominados como italianos, era comum
encontrarmos expressões como: “foward italiano” ou “zagueiros italianos”.

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aos anos iniciais da associaço. O objetivo seria, justamente, detectar alguma mudança
na cobertura jornalística da imprensa paulistana relativa ao Palestra Itália.
Para não nos tornarmos repetitivos, cito duas passagens da cobertura do
primeiro jogo do Palestra no campeonato de 1933, contra o Corinthians, publicada por
OESP em 9/537, vencido pelo Palestra Itália por 5 a 1:
“Contudo, a acço da linha de avantes salvou o
club do Parque São Jorge de um fracasso maior.
Notámos porém uma falha: morosidade e
insegurança no momentos que requeriam acço
rápida. Por isso, pouca foram as vezes que o
excelletente guardião do Palestra teve que intervir
(…)”
“O seu exito (do Palestra) se deve mais aos
remates freqüentes da linha de avantes, remates de
acçes individuais, porque os ataques foram, em
sua maioria, pessimamente finalisados,
consequencia, alias da ausencia de uma efficaz
actuaço de conjunto.”
Ora, como um time que perdeu por 5 a 1 foi salvo de um fracasso maior (!) por
uma linha de avantes que só conseguiu marcar um tento? E, como uma equipe marca 5
gols em uma partida com péssimas finalizaçes e uma ausência de jogo em conjunto?
Como podemos notar, o conteúdo da cobertura jornalística sobre a participaço
do Palestra Itália no campeonato continuava sendo parcial; 13 anos depois repetiam-se
os mesmos problemas encontrados na década de 10. A parcialidade seria a tônica das
notícias referentes ao Palestra Itália. Em 1933 sua equipe seria campeã do Estado de
São Paulo, ganhando este título contra a Portuguesa Santista (campeã da “Série
Santista” que vencera o campeão da “Série Campineira”) numa partida por 6 a 0. Seria
bicampeão da cidade de São Paulo, vencendo seu último compromisso contra o São
Paulo Futebol Clube (única equipe com chances de ultrapassa-lo na classificaço geral)
por 1 a 0, e ainda o primeiro campeonato Rio/São Paulo. A grande novidade no cenário
futebolístico brasileiro seria esta modalidade abandonar o amadorismo, e o Palestra
torna-se o primeiro campeão do futebol profissional brasileiro.
A peculiaridade que encontramos neste ano é o posicionamento do OESP em
relaço à adoço do profissionalismo no futebol brasileiro. Tal fato seria o auge do
processo de democratizaço do futebol, com o regime profissionalizante oficializava-se
a entrada de atletas oriundos das classes menos abastadas no campo de jogo (ARAÚJO,
1996).
Este processo iniciara-se na década de 10 e o Palestra Itália seria um dos seus
principais protagonistas, pois, como apontamos, esta associaço abria as portas para a

37 – O jogo fora realizado no dia 7/5, portanto, a matéria saia numa terça-feira, dia em que era publicada
a cobertura da rodada do final de semana, neste ano não havia ediçes do OESP às segundas-feiras.

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participaço de atletas originários do grupo imigrante fixado na capital. Este grupo era
formado na sua maioria por operários e trabalhadores manuais da cidade (ALVIM,
1986; CARELLI, 1988, CENNI, 1975, RIBEIRO, 1985, MARTINS, 1973); não era
possível a mensuraço da quantidade de jogadores ligados a esta classe social, assim
acreditamos que o Palestra Itália, por ser o representante do grupo italiano, tornar-se-
ia o time que os aceitaria de bom grado. Diferentemente das outras equipes da cidade,
o corte realizado na seleço dos atletas não seria em bases classistas, mas étnicas.
Mesmo, que não existisse uma seleço rigorosa neste sentido, dificilmente um não
italiano empenhar-se-ia em participar do Palestra Itália como jogador ou associado,
numa sociedade que no início do século tanto estigmatizou o imigrante, em especial o
italiano (CARELLI, 1988; IANNI, 1963).
Durante este ano, OESP realizou uma severa campanha contra o
profissionalismo no futebol e a maioria das notícias sobre o desenrolar do campeonato
da APSA continha alguma referência, geralmente crítica, ao que estava sendo adotado
naquele ano em nosso país.
Um fato que se destaca nos artigos sobre este assunto é o papel dado ao Palestra
Itália, pelo OESP, neste processo. Em muitas oportunidades, o jornal o acusa de ser a
equipe que mais se utilizava da prática do “falso amadorismo”, consistente em usar
jogadores que viviam da prática do futebol, recebendo salários, em seus times. A
passagem abaixo foi retirada de uma notícia sobre uma partida amistosa entre Palestra
e Portugueza; criticavam-na por sua renda reverter em favor dos cofres das associaçes,
lembrando que os antigos jogos beneficentes caíram em desuso devido a implantaço
do profissionalismo.
“São contendores o Palestra Italia, o campeão do
‘falso amadorismo’, segundo os plumitivos do
momento; e a Portugueza de Desportes que foi a
maior victima do ‘falso amadorismo’, segundo a
opinião abalisada dos plumitivos” (OESP,
19/3/33)
Era o esperado que uma associaço com sua base nas classes populares por causa
do vínculo com o imigrante italiano e, ainda, com jogadores oriundos deste grupo, ser a
mais acusada da prática do “falso amadorismo”. Desta forma, como os Carnera,
Avelino, Gabardo, Del Bianco, Imparato e Pintanella38, provavelmente ligados à classe
operária neste período, conseguiriam sobreviver praticando somente o futebol? Mesmo
que estes não tivessem sua origem nesta classe, o fato de ser italiano no início da
década de 30 ainda os remetia a esta condiço.
Neste período, a utilizaço de “falsos amadores” não era exclusividade do
Palestra Itália; em São Paulo, esta prática foi mais difundida do que em outros centros
urbanos brasileiros, como por exemplo o Rio de Janeiro (MAZZONI, 1950). Portanto, o
título de “campeão do falso amadorismo” provavelmente não condizia com a

38 – Esses são nomes de alguns jogadores que atuavam no time do Palestra Itália.

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realidade, mas como o Palestra, historicamente esteve atrelado a um grupo de fortes
ligaçes com a classe operária, a imagem difundida seria esta.
A adoço, primeiro do “falso amadorismo” em anos anteriores, e do
profissionalismo, em 1933, introduziu na equipe do Palestra alguns jogadores com
nomes não italianos, como foi a regra nos anos analisados isto poderemos constatar
com a escalaço do time campeão paulistano:
Nascimento
Carnera e Junqueira
Garcia, Dula e Tuffy
Avelino, Gabardo, Romeu, Del Bianco e Imparato
Como vemos, há até um jogador com nome sírio-libanes nesta equipe. O futebol
tornava-se, com o passar dos anos, um esporte altamente competitivo e as equipes
necessitavam de jogadores altamente qualificados tecnicamente, não mais importando
as origens sociais e também étnicas dos atletas. Com certeza, nos jogos do Palestra
Itália, as arquibancadas enchiam-se de italianos e seus descendentes, pois continuava
sendo a equipe representante do grupo italiano da cidade de São Paulo.
1942
Em primeiro lugar devo ressaltar que a pesquisa realizada em 1942 selecionou
154 notícias, mas estas terão um caráter diferenciado das efetuadas nos anos anteriores.
Nesta época estávamos em pleno Estado Novo e OESP sofria intervenço do
Departamento de Imprensa e Propaganda (DIP); pela primeira vez, no cabeçalho das
ediçes diárias, não encontramos um nome da família Mesquita na direço do jornal
(provavelmente, primeira e única vez na história do periódico). Deparamos com o de
Abner Mourão, Diretor Designado pelo Conselho Nacional de Imprensa.
Esta fato prejudicará a qualidade do jornal, pois não há mais espaços para
artigos de opinião, fato corriqueiro nos outros anos, mesmo na coluna de esportes.
OESP, neste período, ganhará um forte viés oficial perdendo suas características, além
de outro fato prejudicar a qualidade jornalística do diário — a IIa Guerra. Esta época
histórica foi marcada por uma recessão mundial, limitando em muito as matérias
primas e os bens de consumo; o papel foi um dos produtos atingidos pela crise
econômica gerada pelo período belicoso, e, OESP, assim como os diversos jornais e
revistas do país encontraram uma limitaço física para suas ediçes.
Portanto, neste ano, OESP além de se tornar um “diário oficial”, com a grande
aço da censura, as suas ediçes foram diminuídas quantitativamente no número de
páginas. Nossa pesquisa ficou prejudicada, pois não havia mais espaço para que seus
jornalistas e mesmo sua direço expressassem suas opiniões em artigos e editoriais,
sofrendo profundas transformaçes.
O ano de 42 é significativo na história da associaço por apresentar um conflito
extra-campo entre ela e a sociedade receptora. O confronto entre os paulistanos e o
grupo imigrante italiano foi mais visível, devido a nossa entrada na IIa Guerra contra

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os países do Eixo. O Brasil tornou-se inimigo declarado da Itália, e o grupo imigrante
italiano sofreu represálias. O Palestra Itália foi obrigado a trocar de nome – passando a
se chamar Sociedade Esportiva Palmeiras em setembro de 1942 – para que não
houvesse alusão ao inimigo. Todas as associaçes italianas, alemãs e japonesas foram
obrigadas à mudança, para que não houvesse referências às naçes inimigas.
O Palestra Itália, em 42, estava disputando o campeonato paulista com grandes
chances de sagrar-se campeão, quando o Brasil declara a entrada no conflito mundial
apoiando os aliados. O Conselho Nacional de Esportes (CND) decreta uma portaria
proibindo eventos esportivos tornarem-se locais para a “manifestaço de
nacionalidades” — segundo próprio texto da portaria de setembro de 1942 – designando
às forças públicas estaduais a responsabilidade da manutenço da ordem.
O campeonato daquele ano fora muito disputado e, mais uma vez, o Palestra
Itália e o São Paulo Futebol Clube chegavam às últimas rodadas com chances de
alcançarem o título paulista. O jogo entre as duas equipes ganhava aspectos de grande
finalíssima, sendo cercado de grande expectativa e apreensão, principalmente devido
ao conflito extra-campo. O jogo realizado entre as duas associaçes ocorrera em 22/9,
dois dias após a adoço da denominaço de Sociedade Esportiva Palmeiras, com a
vitória dos palestrinos (palmeirenses) por 2 gols a 1. Este foi o time que atuou contra o
São Paulo:
Oberdan
Junqueira e Begliuomini
Procópio, Og e Del Nero
Claudio, Valdemar, Viladoniga, Lima e Echevarrieta
Em 20 de setembro de 42, o Palestra Itália define a mudança de nome para
Sociedade Esportiva Palmeiras – em março o Palestra já sofria pressões e havia
adotado o nome de Palestra de São Paulo39 – entretanto preservou o distintivo do clube
(um “P” maiúsculo) e o verde do uniforme (cor predominante até os dias atuais). Com
isso, a associaço passa a se chamar Sociedade Esportiva Palmeiras (nome de um
antigo time da cidade), e retira o vermelho do uniforme (que procurava reproduzir as
cores da bandeira italiana).
Este episódio fora delicado para a associaço, que atendia uma deliberaço do
CND; lembramo-nos que com a entrada do Brasil na guerra contra os países do Eixo,
em 22/8, todas as associaçes sofreram pressões para que controlassem seus associados
com nacionalidade alemã, italiana ou japonesa. E, como apontamos, as associaçes
étnicas sofreram maiores pressões para que se mudassem nomes com alusão direta ao
país de origem, ou mesmo sofreram intervençes de órgãos oficiais, principalmente no

39 – Este nome, além de retirar a referência direta à um país inimigo, fazia sentido, pois havia diversos
Palestras no interior do estado e mesmo em outros estados da federaço; os mais famosos eram o
Palestra Itália de Minas Gerais, atualmente E. C. Cruzeiro, e o do Paraná, atualmente Coritiba Futebol
Clube. Mas este nome necessitaria ser mudado pois a simples referência à Palestra na cidade de São
Paulo já se referia, automaticamente, a Itália; com isso, a associaço necessitou mudar por completo sua
denominaço para Sociedade Esportiva Palmeiras.

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caso dos alemães. Para termos uma idéia do clima, cito uma notícia publicada em 2/9
sobre o São Paulo:
“Em reunião extraordinaria da diretoria, ficou
aprovado e autorizado á secretaria do São Paulo
Futebol Clube processar a interrupço de direitos e
obrigaçes de socios de origem italiana e alemã.”
Com estes fatos ocorrendo, o Palestra tomava algumas medidas que
expressavam o apoio ao Brasil na guerra, constatando por esta notícia publicada em
3/9:
“EXPRESSIVO GESTO DA S. E. PALESTRA DE SÃO
PAULO
Recebemos da Sociedade Esportiva Palestra
de São Paulo, o seguinte comunicado:
‘A Diretoria da Sociedade Esportiva Palestra
de São Paulo, em sua reunião hoje efetuada,
resolveu, por unanimidade de votos, fazer entrega
ao exmo. sr. Luiz Aranha, m. d. presidente da
Confederaço Brasileira de Desportos, da renda
liquida que lhe couber no encontro a realizar-se no
dia 20 do corrente com o São Paulo Futebol Clube
para que seja encaminhada as familias dos navios
brasileiros, torpedeados pelos submarinos do
“eixo”.
Secretaria da S. E. Palestra de São Paulo, 1o de
setembro de 1942. (a) dr. P. Valter B. Giuliano –
Secretario Geral.”(OESP, 3/9/1942)
O Palestra lutava para demonstrar qual o lado que estava, pois era o
representante no futebol de um grupo, que, provavelmente, boa parte havia se
encantado pelo regime fascista de Benito Mussolini. As pressões somavam-se à
associaço que necessitava agir para que não houvesse uma intervenço como alguns
adversários gostariam. Numa entrevista publicada em revista comemorativa dos 75
anos do Palmeiras, o jogador Oberdan Catani (goleiro do time de 42 e um dos maiores
ídolos de toda história da associaço) afirmava:
“ (Em 1942) No 2o turno o campeonato foi
conturbado pela guerra e pelo problema da
mudança de nome do clube. A maioria dos
diretores do São Paulo achava que o Palestra
devia mudar de nome e forçou para que isto
acontecesse. Então os dirigentes tiveram a idéia de

O PAL ESTR A I TÁ LIA E SU A T R AJ ET Ó R IA : AS SO C IA T IVI SM O E ET N IC ID AD E – 30
mudar para Palestra de São Paulo, o que no
entanto não foi aceito, surgindo então o nome
Sociedade Esportiva Palmeiras” ( O Novo
Palmeiras, 1989)
Este foi o momento de maior tensão entre a sociedade paulistana e a associaço,
criada por um fator extra-campo, justamente num momento que o Palestra Itália tinha
se tornado um dos principais times da cidade; aparentemente, as relaçes com a
sociedade receptora tornaram-se menos conflituosas, tanto que o jogo com o São Paulo
foi cercado de muitas preocupaçes e expectativas, desenrolando-se de forma, também,
tensa, como podemos constatar nesta passagem:
“Em vista dos acontecimentos a Federaço deverá,
além da puniço:
a) Chamar a atenço da diretoria do São Paulo
Futebol Clube que, se esquecendo da
responsabilidade, etc., por desconsiderar de
maneira reprovavel, não só altas autoridades do
Estado ali presente, bem como a um publico de
dezenas de milhares de pessoas que para lá
acorreram na certeza de assistir a uma competiço
esportiva e não cenas de indisciplina e da mais
comesinha falta de etica esportiva.
b) Punir o juiz Jaime Janeiro Rodriguez, por não
ter energia necessaria para conduzir uma partida.
c) Determinar ao Departamento de Juizes que dê as
necessarias instruçes em casos semelhantes,
quando o quadro recusar-se a prosseguir a partida,
solicitando da autoridade policial a prisão
imediata daquele que estão lesando o publico.
d) Chamar a atenço dos seus filiados para a letra
“d” do artigo 25o do Decreto-Lei Federal, no 4545,
de 31 de julho de 1942, que dispões sobre o uso da
bandeira nacional, não permitindo que os prelios
futebolisticos sejam confundidos com
manifestaçes de carater nacional. (a) Silvio de M.
Padilha, diretor” (OESP, 24/9/1942)
Estas deliberaçes são referentes ao jogo Palestra (Palmeiras) e São Paulo, onde
o primeiro tornar-se-ia campeão paulista daquele ano. O jogo, segundo relato, foi muito
violento, e o São Paulo abandonaria o campo antes do término da partida, por
discordar da atuaço do árbitro. Como indica a notícia de 24/9, os sentimentos
nacionais de ambos os lados estavam exacerbados, com as autoridades tomando as

O PAL ESTR A I TÁ LIA E SU A T R AJ ET Ó R IA : AS SO C IA T IVI SM O E ET N IC ID AD E – 31
devidas providências, visto o Palestra ser acusado de representar os sentimentos
italianos na cidade de São Paulo, e, realmente, o era, como indica todo o seu passado.
Um fato interessante para este ano é que surge na equipe de futebol o primeiro
jogador negro; até este momento não houvera nenhum desta condiço. Arrisco uma
pequena análise; talvez o Palestra não gostasse de ver jogadores negros atuando em
seu time, justamente por ser uma associaço já discriminada por sua origem étnica. Se o
preconceito já existia contra os italianos, imaginem contra os negros; como se
sustentaria uma equipe formada por negros e “italianinhos”? É muito significativo que
o primeiro atleta negro a atuar no Palestra tenha estreado em 1942, momento que a
associaço era pressionada a assumir características nacionais. Nada mais simbólico
que a introduço de um jogador negro na equipe, como prova de nacionalidade
brasileira do clube. Soma-se a este fato que os jogadores negros, também por serem
oriundos das classes populares, sofreram uma maior restriço para adentrarem ao
futebol “oficial” brasileiro, como afirma Mário Filho no clássico “O Negro no Football
Brasileiro”.
Neste ano, ainda há indícios da parcialidade da imprensa contra o Palestra, mas
podemos afirmar que esta era normal, tratando-se das coisas do futebol, pois a
associaço já era um dos maiores times da cidade e do país. Mas a análise das crônicas
esportivas da imprensa ficaram prejudicadas, como foi apontado, com o Estado Novo
exercendo censura prévia nos meios de comunicaçes. Com isso, OESP deixa de
publicar artigos de opinião, mesmo na coluna de esportes, limitando-se à mera
publicaço dos eventos ocorridos ou que ocorreriam e, mesmo assim, com uma forte
marca oficial.
O PALESTRA ITÁLIA E O GRUPO IMIGRANTE- CONSIDERAÇÕES FINAIS
A rivalidade Palestra Itália/Paulistano (SEVCENKO, 1992) ocorre no
momento que o primeiro começa a disputar o campeonato da APSA, e se torna um
adversário à altura; os vices-campeonatos de 1917 e 1919 e o título de 1920 quebrariam
a hegemonia do Paulistano no campeonato da cidade. Nos primórdios da associaço, o
relacionamento entre as duas equipes aconteceu de forma amistosa, com o Palestra
Itália realizando vários jogos beneficentes com o Paulistano nos anos de 1915 e 1916.
Quando este sagrou-se campeão de 1916, por exemplo, foi o Palestra Itália que
ofereceu uma festa em homenagem ao título alcançado.
O C.A. Paulistano é um clube desportivo existente até os dias de hoje, porém
não mais atua no futebol, que sempre congregou em suas fileiras sobrenomes ilustres,
como Prado, Cunha Bueno, Andrada40, entre outros da elite paulistana. Era um grupo
social imprescindível para o entendimento da gênesis do futebol paulistano e brasileiro,
responsável pela prática e institucionalizaço do esporte, pela organizaço de entidades
dirigentes, como APSA. Portanto, o futebol foi organizado justamente por aquelas
pessoas da elite cafeeira que não viam com bons olhos o imigrante fixado nas cidades,
representadas no campo de jogo pelo C.A. Paulistano.

40 – Os filhos destas famílias foram os integrantes dos times de futebol desta associaço.

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Um bom indício do elitismo do Paulistano é a forma que este clube abandonou
suas atividades no futebol “oficial” da cidade. O término do time de futebol do
Paulistano ocorreu em 1930, por causa dos rumos tomados por este esporte
apresentando uma forte tendência à profissionalizaço, fato que o democratizaria.
Neste ano, a diretoria da associaço decide pelo fim do time de futebol, deixando seus
jogadores sem condiçes para atuarem; juntos com associados que discordavam desta
determinaço, fundaram o São Paulo Futebol Clube, agremiaço que perdura até os
dias de hoje, como um dos principais times da cidade e do país.
O Palestra Itália tem uma história bem diversa: os fundadores eram
provenientes dos extratos médios da sociedade. Os formuladores da idéia que gerou o
Palestra Itália eram funcionários administrativos das Empresas Matarazzo41, com o
objetivo de aglutinar, em torno de uma associaço desportiva, justamente a parte
italiana deste grupo social, que não encontrava espaço nas associaçes futebolísticas de
porte da cidade. Com isso, pretendiam criar uma equipe representativa do grupo
italiano da cidade de São Paulo, que não se restringia a este extrato médio. É necessário
lembrar que a maioria dos imigrantes italianos, naquele momento, estavam se tornando
a mão-de-obra das indústrias paulistanas, e somente uma parte integrava os extratos
médios ou a nascente burguesia industrial paulistana.
A origem social dos fundadores do Palestra Itália deriva do caráter da prática
desportiva na cidade, que segue o padrão europeu de organizaço de clubes para o seu
desenvolvimento. Este impede a maioria dos imigrantes, composta por uma grande
massa de subempregados e trabalhadores casuais, ou ainda de poucos trabalhadores
assalariados, de se organizar em clubes desportivos. Essas entidades necessitariam de
recursos para a estruturaço de um local para a prática de esporte. Os clubes de futebol,
especificamente, precisariam de uma sede social e de um campo de jogo, para a
realizaço de treinos e, como estes recursos não estavam disponíveis à maioria dos
imigrantes, quem detinha as condiçes para este tipo de investimento eram as elites ou,
num grande esforço associativo, os extratos médios.
Neste momento, os recursos foram captados no grupo imigrante; com
funcionários administrativos das indústrias, empregados do setor de serviços e
pequenos comerciantes. Estes extratos médios necessitavam de um canal de
representaço projetando a imagem do grupo na sociedade; certamente a identificaço
dos imigrantes pela sociedade paulistana (CARELLI, 1988) com a pobreza, a sujeira, o
analfabetismo, e com problemas sociais, não condizia com as aspiraçes deste grupo
social. Os imigrantes que estavam enriquecendo, como a família Matarazzo e a Crespi42,
não necessitavam deste canal, pois o meio de projeço na sociedade receptora seria o
próprio processo de aburguesamento. Isto não vai impedir sua aproximaço com
algumas pessoas abastadas do grupo, que se tornam dirigentes, num segundo
momento quando esta associaço estava solidamente estruturada, como é o caso de
Ermelino Matarazzo.

41 – As Empresas Matarazzo era a base do conglomerado empresarial do Conde Matarazzo, imigrante
com posses que criou o maior complexo empresarial paulistano, na primeira metade do século.
42 – As duas famílias no período estavam construindo algumas das principais indústrias da cidade de
São Paulo.

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A necessidade de mudança na imagem do grupo italiano aliada à popularizaço
do futebol no país foram as causas da fundaço do Palestra Itália. Este esporte seria a
arena onde a mudança poderia ocorrer, através da competiço contra os clubes das
elites paulistanas. A disputa futebolística tornar-se-ia locus privilegiado para os
imigrantes construírem a nova imagem do grupo, rivalizando-se em igualdade de
condiçes técnicas e normativas com os integrantes da sociedade paulistana, onde se
abria a possibilidade de demonstrar o valor “moral”43 do grupo.
O futebol projetaria não só os extratos médios do grupo italiano nesse momento
de popularizaço do esporte, mas o grupo na sua totalidade, com a plena atuaço no
campo de jogo e nas arquibancadas. O interesse pelo futebol arrastava verdadeiras
multidões para os locais onde os “matchs” eram disputados, como foi indicado e,
demonstra o texto publicado em 6/12/1920 sobre o jogo Palestra Itália e Corinthians:
“Desde muito antes da hora, grande quantidade de
carros da Canadense e automoveis, despejavam
ondas de apreciadores, e mesmo leigos que, que por
contagio do interesse dominante nos entendidos,
desafiaram as demais nuvens de po da avenida
Agua Branca, e para o local do encontro se
dirigiram (…)” (OESP, 6/9/20).
Ou no de 31/5 do mesmo ano, referente ao jogo Palestra Itália e Santos que se realizou
em Santos:
“Quem desprevinido e ignorante das nossas coisas
sportivas fosse hontem pela manhã á estaço da
Luz, haveria de indagar que facto extraordinario
havia acontecido, que personagem de alta
importancia no mundo iria embarcar ou
desembarcar…Um inglez calmo e pacifico houve,
que julgou ser a hora da chegada do immortal rei
dos belgas, em viagem antecipada…E não era para
menos. Desde cinco e meia que a estaço da
Ingleza fervia. Uma verdadeira onda de povo alli

43 – A prática desportiva desta época estava muito ligada à idéia da educaço moral e cívica, como foi
apontado no capítulo 3; os esportes dariam aos seus praticantes individuais e ao povo em geral uma
“elevada moral” e condiçes de demonstrar o nível de civilidade dos povos.
Em 15/11/17 o “O Estado de São Paulo” publica uma notícia sobre o tricampeonato do
Paulistano, discorrendo sobre a disputa no ano seguinte da Taça Cidade de São Paulo, oferecida pelo
prefeito da cidade, Washington Luís, destacando o papel da educaço física na sociedade: “Esse gesto
do sr. prefeito municipal demonstra bem quanto s.exa. se interessa pelo problema da educaço physica
da nossa mocidade, para qual todos os homens da administraço publica devem voltar, neste momento
mais do que nunca, as suas vistas.” O momento referido no texto é a Ia Guerra Mundial, onde a
educaço física deveria ser cultivada como a maneira de “elevaço moral” dos povos.

O PAL ESTR A I TÁ LIA E SU A T R AJ ET Ó R IA : AS SO C IA T IVI SM O E ET N IC ID AD E – 34
fazia um enorme borborinho. Os empregados da
estrada afobados de um lado para o outro, com
signaes de bandeiras, apitos e campainhas, tudo
uma confusão, um estardalhaço medonhos! Ás seis
horas sahiu um trem abarrotado de povo que se
comprimia pelas plataformas e pelos corredores
dos vagões. Dahi a minutos, outro comboio inicia
marcha da mesma forma. E logo depois, outro, que
dava a impressão de uma reproduço ferroviaria,
do celebre soneto de Raymundo Correa. E la se
foram… para assistir o jogo Palestra Itália-
Santos, que á tarde ia ser disputado no campo de
Villa Belmiro, na nossa vizinha cidade maritima.
Emquanto isso, pela estrada do Vergueiro, dezenas
de automoveis porfiavam em levantar mais poeira,
e em mais vezes infringir a decantada lei da
regulamentacao da velocidade dos vehiculos…”
(OESP 31/5/20)
Como podemos notar, na segunda metade da década de 10, o futebol atraía uma
quantidade respeitável de espectadores e, em se tratando do Palestra Itália, uma
grande quantidade de imigrantes italianos, que, seguramente, não fazia parte somente
dos extratos médios do grupo. Os textos do jornal indicam que a associaço
representava todo esse grupo social italiano, fato inédito em seu movimento associativo
caracterizado pela representaço regional, de lombardos, vênetos, calabreses,
napolitanos, etc (LUCA, 1988).
Este processo leva-nos a tratar da construço da etnicidade italiana em São
Paulo, despontando para o papel fundamental o Palestra Itália. Esta associaço, se não
foi a primeira, foi a que obteve o maior sucesso na tentativa de representaço do grupo
italiano na cidade de São Paulo, envolvendo a formaço da italianidade junto a pessoas
que ainda não se consideravam italianos.
O Palestra Itália, através do futebol e da competitividade esportiva com a elite
paulistana, fez com que os imigrantes se reconhecessem como um grupo de indivíduos
com identidades comuns. Tal confronto foi fundamental, porque os diversos grupos
regionais sempre foram identificados como italianos pela sociedade paulistana, tendo
em comum a origem geográfica, a pobreza, a sujeira e a marginalizaço. Esta imagem
do imigrante italiano, elaborada pela sociedade receptora, colaborava para a
inexistência de uma identidade comum no grupo, já que não se enxergavam dentro do
estereótipo, não se considerando integrantes deste grupo. Havia ainda o fato de não
serem italianos na terra de origem, devido à recente unificaço política da Itália.
O Palestra certamente seria parte integrante na elaboraço da “italianidade” em
São Paulo, gerando oportunidades de manifestaço das origens étnicas do grupo a que
estava ligado. A imagem de “italiano” no início do século em São Paulo não era
positiva, como foi demonstrado; esta associaço, com seus enfrentamentos e as

O PAL ESTR A I TÁ LIA E SU A T R AJ ET Ó R IA : AS SO C IA T IVI SM O E ET N IC ID AD E – 35
conseqüentes vitórias sobre as equipes do futebol “oficial”, abria um espaço e criava
momentos em que ser italiano não representava estar ligado à uma imagem negativa
criada pela sociedade receptora (GLICK-SHILLER, BASCH & BLANC-SZANTON,
1992)
Aos poucos o Palestra Itália faria parte da estratégia utilizada pelo grupo, que
visava ao reconhecimento social da sociedade receptora. Ao mesmo tempo, pela
primeira vez, algo poderia unir uma grande parte do grupo em torno de um objetivo
comum, gerando identificaço entre seus membros. Portanto, a história do Palestra
estaria se confundindo com o processo de assimilaço do grupo. De um lado começa a
participar de algo comum a toda sociedade, e do outro, preocupa-se com o processo de
formaço da italianidade; entretanto a cada partida do time o grupo italiano
visualizava uma situaço em que valeria à pena ser italiano dentro da sociedade
paulistana.
A partir do momento que um time de futebol autodenominado representante do
grupo italiano começa a enfrentar os principais clubes paulistanos em igualdade de
condiçes e, com o tempo, a derrotar estes times na arena esportiva, a imagem do
grupo começa a se modificar para ele mesmo, e para a própria elite. Esta modificaço,
aos poucos fez com que os imigrantes italianos se reconhecessem, enquanto indivíduos
briosos, com qualidades e valores capazes de enfrentar a nata da sociedade paulistana.
Portanto, esta associaço, no início de sua história, colaborou para a mudança da
imagem do italiano residente na cidade de São Paulo: de um indivíduo que acarretava
problemas à sociedade receptora, em alguém que transpôs os obstáculos iniciais para
tornar-se um vencedor e enriquecer na sociedade receptora.
Os primeiros anos de atuaço do Palestra Itália fundem-se com a construço da
italianidade em terras paulistanas, por ser um elemento importante deste processo. A
capacidade de congregar e representar o grupo italiano na cidade de São Paulo, sem os
cortes regionais, vai ao encontro das aspiraçes do governo italiano (CHIARINI, 1992),
que forjou uma política de construço da nacionalidade, desde os primórdios do Estado
italiano unificado. Tal processo necessário politicamente, mas com uma frágil, ou
mesmo inexistente, identidade nacional, tão imprescindível à formaço de um Estado-
Naço.
Com a emigraço de um enorme contigente de italianos, a construço de sua
etnicidade assume aspectos peculiares e de difícil execuço, com uma parte
significativa do seu contigente populacional não se encontrando em terras italianas.
Desta maneira, a política de formaço de identidade nacional não se restringirá à
península itálica. Os imigrantes se tornam uma peça fundamental para este processo,
sendo incorporados à política oficial dessa construço. A diplomacia italiana, neste
período, difunde a sua cultura em países onde o contigente de seus imigrantes era
representativo, com suas associaçes exercendo papel de ligaço entre os consulados e
o grupo imigrante. Tal política se explicita com a fundaço em 1911 do “Circolo
Italiano” em São Paulo, associaço oficial de seu governo em terras brasileiras
(CHIARINI, 1992).
A ligaço entre Palestra Itália e o consulado italiano em São Paulo não aparece
claramente. No OESP há somente algumas referências a convites do Palestra Itália às

O PAL ESTR A I TÁ LIA E SU A T R AJ ET Ó R IA : AS SO C IA T IVI SM O E ET N IC ID AD E – 36
autoridades consulares para participarem de solenidades, como alguns jogos
beneficentes, cedendo-lhes sua sede social para a festas e solenidades. Mesmo sendo
pequenos os indícios dessa ligaço é muito difícil imaginar as autoridades consulares
ignorando a associaço, visto possuir grande número de simpatizantes, e ter por
objetivo a representaço da totalidade dos imigrantes italianos residentes na cidade.
Em 1936, o Palestra figurava como um dos feitos do grupo italiano em terras
brasileiras, segundo uma publicaço comemorativa dos cinqüenta anos de emigraço
italiana para o Brasil – Cinquant’anni Di Lavoro Degli Italiani in Brasile – editada pela
Società Editrice Italiana. Este livro dedicou uma página ao Palestra Itália, texto que se
iniciava com o seguinte parágrafo:
“Tra le società italiane di S. Paolo la Palestra
Italia occupa indubbiamente un posto
importantissimo, sia per l’attiva propaganda che
ha sempre spiegata, sia per il gran numero di soci e
sia, sopratutto, perchè aduna intorno alla sua
bandiera un folto gruppo di giovani, figli di nostri
connazionali e brasiliani di origine, i quali sono a
loro volta buoni propagandisti di questa
associazione, che onora il nome italiano
all’estero.” (1936:216)
A ligaço do Estado italiano com o grupo imigrante da cidade de São Paulo
explicita a existência de uma política de construço da italianidade; mostra, o processo
de transformaço de um grupo étnico com identidades regionais, em indivíduos
identificados lingüstica, cultural e politicamente com um Estado-Naço, que neste
momento histórico, também estava se formando. O imigrante seria fundamental para
esta política; um país como a Itália, onde parte considerável de sua populaço não se
encontrava em seus limites geopolíticos, teria a oportunidade de construir a imagem da
naço italiana no exterior, tornando-se o canal de ligaço com as sociedades receptoras.
O movimento associativo poderia se tornar um agente importante para a
visualizaço de um novo conceito do grupo italiano no Brasil; simultaneamente a
construço de um Estado italiano nos moldes liberais e capitalistas da época. A imagem
do imigrante analfabeto, pobre, marginalizado não condizia com a idéia de “Nova
Itália” recém unificada; procurava disputar terreno entre as naçes desenvolvidas
européias como Inglaterra e França, papel reforçado quando se tratava de uma
associaço representativa de todo o grupo imigrante. Ao defrontar, no campo de jogo,
com as elites da sociedade receptora, colocaria em jogo o “valor”, a “civilidade”, o
“caráter” do grupo.
Podemos verificar que a mudança da imagem do imigrante italiano era
necessária tanto para eles mesmos, que, de alguma forma, conseguiram ascender
socialmente, como para o próprio país de origem; necessitavam de indivíduos não
menosprezados nas sociedades receptoras, caso dos paulistanos na virada do século
XX. O imigrante ao conseguir sua ascensão social, queria seu reconhecimento enquanto

O PAL ESTR A I TÁ LIA E SU A T R AJ ET Ó R IA : AS SO C IA T IVI SM O E ET N IC ID AD E – 37
indivíduo e cidadão na sociedade receptora; e a Itália necessitava de uma melhor
imagem de seus cidadãos no exterior, para construir a italianidade e projetar-se no
cenário mundial.
O Palestra Itália, durante a primeira década de existência se enquadrava
perfeitamente nestes objetivos, projetando a imagem deste italiano para a sociedade
paulistana, justamente numa arena que o conflito era minimamente aceito (DA
MATTA, 1994). Este processo de mudança não percorreu um caminho fácil, pois houve
grande resistência em considerá-lo um indivíduo com direito a um lugar de destaque
nesta sociedade. Ele sempre foi encarado como o substituto do braço escravo, e a idéia
de livre oportunidade e competiço, nascida com o trabalho assalariado, ainda não
havia sido digerida pelos paulistanos nas primeiras décadas deste século. Tal problema
se potencializa quando pensamos na elite cafeeira, dentro do processo de formaço,
colonizaço e desenvolvimento de São Paulo nunca havia encontrado outro grupo
social capaz de enfrentá-la ou mesmo reivindicar algo dentro da estrutura social
paulistana.
O futebol, durante a segunda metade da década de 10 e os anos 20, passa por
uma extrema popularizaço, tornando-se o esporte de massas do Brasil, ultrapassando,
no gosto do povo, esportes como o remo, o atletismo, entre outros. Este período
coincide com a fundaço do Palestra Itália e a estruturaço da equipe em uma das
principais da cidade e do país. Um dos historiadores do futebol, Thomaz Mazzoni,
credita ao Palestra Itália uma boa parte da responsabilidade pela popularizaço deste
esporte em São Paulo (MAZZONI, 1950). Neste período o Palestra Itália conquista
dois vice-campeonatos (1917 e 1919), o primeiro título de campeão da cidade (1920), e
mais dois (em 1926, campeão invicto e 1927); com o clube estruturado, tornar-se-ia o
time hegemônico na década de 30 – com quatro títulos, sendo que na primeira metade
destes anos sagrou-se tricampeão em 1932, 1933 e 1934.
Os resultados alcançados na primeira fase do Palestra Itália – entre 1914 e a
metade da década de 20 – aconteceram numa cidade de forte influência italiana
(CARELLI, 1988). A cidade de São Paulo, conforme o censo de 1920, contava com
205.245 estrangeiros, numa populaço total de 579. 033, sendo que destes, 91.54444 eram
italianos45. Este sucesso, com certeza, colaborou na adesão de uma massa de
“torcedores”, na sua maioria composta de italianos e descendentes; estes
acompanhavam um time de futebol formado por elementos deste grupo46, fazendo esta
associaço se tornar uma das mais importantes do movimento associativo.
O outro período da história palestrina (1933 e 1942), coberto pelo levantamento
realizado no OESP, se refere aos anos trinta e ao ano de 1942. Na década de trinta, a
associaço encontrava-se solidificada, conquistando o tricampeonato em 32, 33 e 34 e
sagrando-se o primeiro campeão brasileiro do futebol profissional em 1933.

44 – Cf. “Recenseamento de 1920” volume IV 1a parte e 2a parte, tomo II – Diretoria Geral de Estatística do
Ministério da Agricultura, Indústria e Comércio.
45 No censo de 1920 os descendentes diretos dos italianos, nascidos no Brasil, eram considerados
brasileiros.
46 – Isto é facilmente comprovado quando analisamos as escalaçes dos primeiros times do Palestra
Itália, que contavam, quase exclusivamente, com jogadores de sobrenomes italianos.

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O grupo italiano, neste momento, tem a imagem assegurada de um vencedor
face às duras condiçes de vida do período inicial e colaborador do desenvolvimento
da cidade, que se tornava um grande centro urbano. Aliado ao fato do número de
entradas de imigrantes italianos no Brasil estar diminuindo gradativamente desde
meados dos anos 2047, o Palestra Itália torna-se um representante de imigrantes
fixados há algum tempo na sociedade paulistana e de seus descendentes.
Em 1933 ocorre também a profissionalizaço do futebol, e isto reflete
diretamente sobre a cobertura jornalística deste esporte. OESP posiciona-se,
radicalmente, contra a sua adoço do no futebol brasileiro, acusando-o de desvirtuar a
essência deste esporte – entendida como a disputa entre amantes do esporte. O
profissionalismo seria introduzido para combater o “falso amadorismo”, ou a prática
de remunerar os jogadores com intuito destes se dedicarem somente ao futebol, a fim
de evitar as atividades profissionais interferindo no seu rendimento.
O argumento encobria o mal estar causado pela presença de jogadores
provenientes das classes baixas, proporcionado pela prática do “falso amadorismo”. O
pagamento de salários aos de origem humilde, era condiço essencial para que
pudessem praticar o futebol. O trabalho em outras atividades implicaria na falta de
tempo para os treinos e na preparaço necessária dos jogadores numa época onde o
futebol se tornava extremamente competitivo. O Palestra Itália precisava deste
expediente para a manutenço do time em níveis competitivos, pois grande parte do
grupo imigrante era formado por assalariados, que não teriam tempo suficiente para a
prática do esporte somente como divertimento.
A identificaço desta associaço com esta prática, que era regra geral entre os
times de futebol da época, denota que o Palestra Itália continuava sendo identificado
com a grande massa de imigrantes que, na década de trinta, compunha uma boa parte
do proletariado das indústrias paulistanas. A incorporaço destes indivíduos no futebol
causava mal estar às elites paulistanas, que não desejavam vê-los participando de um
esporte que até há pouco tempo, era-lhes exclusivo.
Por outro lado, o Palestra Itália não poderia ser ignorado por estas elites, pois
seus resultados no campo de jogo tornava-o um dos principais times da cidade, além de
contar com um número muito grande adeptos. No entanto, continuava sendo
discriminado nas colunas diárias dos jornais, com análises técnicas desfavoráveis pela
imprensa esportiva, procurando menosprezar seus feitos.
Este fato é evidente quando analisamos as notícias sobre a ascensão do Palestra
Itália nos diversos anos onde realizou campanhas brilhantes, com poucas derrotas. As
crônicas sobre o Palestra Itália nunca apontavam uma grande atuaço, com as vitórias
sendo creditadas à sorte, à infelicidade dos adversários, à péssima atuaço dos árbitros,
ou mesmo à ineficiência dos adversários, nunca às qualidades do time palestrino. A
cobertura esportiva demonstra ainda que, nos anos trinta, continuava sendo um
“intruso” no futebol brasileiro, não se tornando uma equipe que representaria à altura
o esporte na cidade.

47 – A média de entradas de imigrantes italianos no Brasil entre 1920 e 1925 foi aproximadamente de
12.000 pessoas, diminuindo em 50% – aproximadamente 6.000 pessoas – entre 1926 e 1933.

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Com isso, tentei demonstrar como ocorreram as relaçes entre uma associaço
italiana, a de maior visibilidade do grupo imigrante, e a sociedade receptora. O
enfoque privilegia o período de fundaço e estruturaço da associaço, durante os anos
dez e vinte deste século, período em que ocorre o processo de formaço da etnicidade
italiana na cidade de São Paulo. Nele, o grupo imigrante italiano necessitava de um
canal de representaço junto à sociedade para a mudança de sua imagem, que ainda
estava construída com categorias forjadas no início da grande imigraço para o Brasil.
Este canal seria, justamente, uma associaço que entraria em confronto com a sociedade
tradicional, numa arena onde este era aceito — o futebol.
B IBLIOGRAFIA
1936 – Cinquant’anni Di Lavoro Degli Italiani in Brasile – Società Editrice Italiana,
Roma.
1989 – O Novo Palmeiras. Revista Comemorativa de 75 anos da Sociedade Esportiva
Palmeiras – Global Editora/Tempo e Memória, São Paulo
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