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Category Archives: Secessionismo

Frustradas as expectativas de obter apoio nacional para a causa constitucionalista, as forças paulistas que se levantaram contra o governo de Getúlio Vargas em 1932 viram-se isoladas e, inferiores em número de homens e armas, não puderam resistir mais do que três meses.
A revolução de 1932 foi o movimento armado que mobilizou o estado de São Paulo pela restauração do regime constitucional, ferido pela revolução de 1930, e pela cessação da interferência federal no estado.
Após a deposição de Washington Luís, o Partido Democrático de São Paulo (PD), integrante da coligação que levara Getúlio ao poder, obteve maioria no secretariado civil. Contra as pretensões do PD, os tenentistas aliados a Getúlio nomearam um delegado militar para o governo estadual e um novo comandante para a Força Pública. Em 1931, tiveram início manifestações populares que exigiam a retirada dos tenentistas e a nomeação de um interventor “civil e paulista”. Surgiram organizações legais e grupos clandestinos, alguns dispostos à luta armada. Em janeiro de 1932, o PD rompeu com o governo federal, atitude que foi endossada pelos cafeicultores paulistas.
Formou-se então a Frente Única Paulista (FUP), que uniu antigos adversários políticos: o PD e o Partido Republicano Paulista (PRP). O Rio Grande do Sul rompeu com Getúlio e solidarizou-se com os paulistas. O comando militar revolucionário coube ao general Euclides de Oliveira Figueiredo e depois ao general Bertoldo Klinger, de Mato Grosso, sob a chefia suprema do general Isidoro Dias Lopes. Em 9 de julho começaram os combates, com a Força Pública unida às tropas do Exército aquarteladas em São Paulo. Contava-se como certo o apoio dos outros estados, o que não ocorreu. Klinger chegou a São Paulo no dia 12, acompanhado apenas de uma centena de soldados, e não dos cinco mil que prometera aos líderes da FUP.
O Rio Grande do Sul retratou-se ante o governo federal e Minas Gerais prolongou sua indefinição até que, diante do avanço das tropas paulistas sobre seu território, voltou-se contra o movimento. Em todo o país repetiram-se as adesões oficiais ao governo central, enquanto simpatizantes organizavam levantes, sem sucesso, para dar apoio militar aos paulistas. Em setembro, Klinger solicitou o armistício e em 2 de outubro a Força Pública, que dias antes entrara em contato direto com as forças federais e abandonara a luta, depôs o governo revolucionário.
A causa constitucionalista fortaleceu-se significativamente com a revolução, apesar da derrota. Do ponto de vista do governo federal, o movimento paulista era ilegítimo, liderado por políticos marginalizados pela revolução de 1930. Para a oligarquia paulista, no entanto, o episódio se interpreta como luta pela reinstauração da ordem legal e das liberdades democráticas fundamentais.

A CAUSA SEPARATISTA

O principal motivo pelo qual as tropas Paulistas lutavam era sem nenhuma dúvida pela constitucionalidade,pela democracia e pela liberdade.

Entretanto é bom se ressaltar que como em toda guerra existiam correntes ideológicas das mais diversas,dentre elas a correnet separatista Paulista,esta não era a mais popular,mas tinha seua dptos e defensores.

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LEI Nº 8.129 DE 2 DE OUTUBRO DE 1974
Escudo português de goles, com um braço armado, destro, movente do flanco sinistro, empunhado um pendão de quatro pontas farpadas, ostentando uma cruz de goles, aberta em branco sobre si, da Ordem de Cristo, içada em haste lanceada em acha de armas, tudo de prata. Em cima o escudo, coroa mural de ouro, de oito torres, contendo em cada torre, três ameias, duas janelas e uma porta. Suporte: dois ramos de café de sua própria cor. Divisa: “NON DVCOR DVCO” *, de goles, em um listão de prata.
fonte: Manual de Instrução da Guarda Civil Metropolitana

* tradução: “Não sou conduzido, conduzo”

Hino Rio-Grandense incluindo a estrofe suprimida em 1966

Hino Rio-Grandense incluindo a estrofe suprimida em 1966

(Hino Farroupilha)

Como a aurora precursora

do farol da divindade,

foi o Vinte de Setembro

o precursor da liberdade.

Mostremos valor, constância,

nesta ímpia e injusta guerra,

sirvam nossas façanhas

de modelo a toda terra.

Entre nós, reviva Atenas,

para assombro dos tiranos,

sejamos gregos na glória

e na virtude, romanos.

Mostremos valor, constância,

nesta ímpia e injusta guerra,

sirvam nossas façanhas

de modelo a toda terra.

Mas não basta pra ser livre

ser forte, aguerrido e bravo,

povo que não tem virtude

acaba por ser escravo

Mostremos valor, constância,

nesta ímpia e injusta guerra,

sirvam nossas façanhas

de modelo a toda terra.

Gesul manifesto
http://www.paginadogaucho.com.br/hist/gesul.htm

Parti Quebecois
http://www.pq.org/

WESTERN CANADA CONCEPT
http://www.westcan.org/

CAPE BRETON LIBERATION ARMY
http://members.tripod.com/~cbla/cbla.htm

http://www.conchrepublic.com/welcome.htm
The Conch Republic

The Green Mountain Republic of Vermont
http://www.angelfire.com/vt/republicvt/

Kingdom of Hawai`i
http://www.pixi.com/~kingdom/

http://www.pbs.org/wgbh/amex/hawaii/program.html
HAWAII’S LAST QUEEN

Perspectives on
Hawaiian Sovereignty
http://www.opihi.com/sovereignty/

REPÚBLICA da Carolina do Sul
http://74.125.91.132/translate_c?hl=pt-BR&sl=en&u=http://republicofsc.wordpress.com/&prev=/search%3Fq%3DNew%2BEngland%2BConfederation%26hl%3Dpt-BR%26client%3Dfirefox-a%26rls%3Dorg.mozilla:pt-BR:official%26hs%3DIit&usg=ALkJrhiZFXef_CqflJY4c7bR0rqr1QU2eQ

BANDEIRAS DE Madawaska:
http://74.125.91.132/translate_c?hl=pt-BR&sl=en&u=http://www.midcoast.com/~martucci/neva/madawask.html&prev=/search%3Fq%3DNew%2BEngland%2BConfederation%26hl%3Dpt-BR%26client%3Dfirefox-a%26rls%3Dorg.mozilla:pt-BR:official%26hs%3DIit&usg=ALkJrhhyfC08JkVQJnuXBTeI4TRyL0x3Ww

Porto Rico
http://www.redbetances.com/

Alianza Libre Europea
http://www.e-f-a.org/whatsefa.php

partido da Cornuália
http://www.mebyonkernow.org/

LIGUE SAVOISIENNE
http://notre.savoie.free.fr/defaultv2_f.htm

Celtic Christian Resources
http://www2.gol.com/users/stuart/celtihs.html

MEBYON KERNOW
The Party For Cornwall
http://members.ozemail.com.au/~kevrenor/mk.htm

Gaelic and Gaelic Culture
http://www.ibiblio.org/gaelic/gaelic.html

Xunta de Galicia
http://www.xunta.es/

THE Scots Independence Tour
http://atschool.eduweb.co.uk/hamish/

FREE SCOTLAND!
http://www.geocities.com/CapitolHill/4816/

Sinn Fein Irlanda
http://www.sinnfein.org/

Chunta Aragonesista
http://www.chunta.com/

Welcome to the website of the Vlaamse Volksbeweging flandres
http://vvb.org/anderetalen/engels.html

Conceyu Xoven país liones espanha
http://www.surf.to/conceyu

The Two Sicilies
http://www.duesicilie.org/

http://www.corsica-nazione.com/ Córsega italia

The Rise and Fall of the Duchy of Brabant
http://www.aegee.tue.nl/site-archive/brabant/brab1.html

Abkhazia
http://www.abkhazia.org/

An introduction to the Sami people
http://boreale.konto.itv.se/samieng.htm

Scania
A Region in Europe
http://www.scania.org/ssf/

Scania suécia
http://www.maltelewan.com/skanelandwebben/

League of Secessionist States
http://www.geocities.com/CapitolHill/5111/ptg_index.htm

INSTITUTE OF THE
RIGHTS OF
PEOPLES
http://www.unpo.ee/en/index.html

Ciemem minorias etnicas
http://www.ciemen.org/

Rodrigo Oliveira Fonseca, militante do PCB
Sob as formas do nacionalismo e da luta pela independência nacional escondem-se
diferentes processos históricos, ou distintas vertentes de um mesmo processo. A partir dos
séculos XVIII e XIX, com a expansão política, econômica e territorial de aparelhos de
estado já fortemente burgueses, desenvolveu-se um tipo de nacionalismo de integração
expansionista. É o caso, por exemplo, da Inglaterra, dos EUA, da França e da Alemanha,
onde os governos investiram no apoio civil à anexação de povos e territórios, e
internamente aumentaram seus poderes sobre a sociedade civil e sobre as regiões já
integradas.
O outro lado da moeda é justamente um nacionalismo de resistência a estes movimentos
de expansão e intensificação de poderes de determinados grupos dirigentes. Este
nacionalismo independentista, contrário à integração/espoliação, é legitimado pela
ocupação histórica de um território, além de particularidades étnicas, culturais e políticas,
e é muito mais diversificado que o primeiro nacionalismo. Do separatismo político à
autodeterminação dos povos temos um crescente que vai da menor à maior participação e
interesses populares nestes processos e na conformação de grupos dirigentes
efetivamente alternativos.
A nação e a independência são sempre, de uma forma ou de outra, projetos histórico-
políticos capitaneados por classes sociais em luta. Isto é mais importante para
entendermos estes diferentes processos do que o próprio fato de existirem línguas, etnias,
culturas e demais particularidades históricas sendo mobilizadas na sua legitimação. E para
além da existência de projetos legítimos desta natureza, o que temos visto é a velha
prática imperialista de ingerências no tabuleiro de forças do mundo, seja na conformação
de cabeças-de-ponte em áreas de acesso mais difícil (o caso de Israel no Oriente Médio e
do Tibet na China), seja na conformação de espaços territoriais que funcionem como
barreiras (por exemplo, a atração de antigas repúblicas pertencentes à URSS para a
OTAN, contra políticas e países rebeldes ao leste).
Voltando então nosso olhar para os acontecimentos destes       últimos dias no Cáucaso, de
que lado está a posição justa a favor da autodeterminação      dos povos, que não deve se
confundir com a tradicional balcanização, o “dividir para      melhor governar” da lógica
imperial? Entre a defesa da integridade da nação georgiana     e a defesa da independência
da nação osseta, qual deve ser a política dos comunistas?
*       *       *
Catorze horas de bombardeios ininterruptos, milhares de mortos, feridos e refugiados,
mais um foco de tensão global. A recente agressão ao povo da Ossétia do Sul pelo
governo da Geórgia é um exemplo da violência gerada pelo imperialismo, de sua desgraça
para a paz no mundo. Aproveitando-se do fato de as atenções estarem voltadas para as
Olimpíadas, o presidente georgiano Mikheil Saakashvili resolveu avançar no seu intento
(que é também o do governo estadunidense) de remover um dos obstáculos para o
ingresso da Geórgia na OTAN e na União Européia: a resistência do povo osseta em
abdicar de sua autonomia política e entregar seu território. Além disso, mesmo que a
Rússia esteja longe de significar o que foi a URSS, podemos pensar na formação de um
novo “cordão sanitário”, como o que se formou imediatamente após a Revolução de 1917,
a fim de isolá-la e submetê-la totalmente aos interesses do consórcio EUA-Europa. Numa
linha praticamente contínua, do Cáucaso ao Báltico, Azerbaijão, Geórgia, Ucrânia,
2

Polônia, Lituânia, Letônia e Estônia têm mostrado disposição para cumprirem este papel,
que deve ser somado ao escudo antimíssil que os EUA estão montando na Europa, sob a
alegação de defesa contra ataques vindos do Irã e da Coréia do Norte. Tudo isso mostra
que a conformação de uma ordem multipolar não significa estabilidade e paz entre as
potências imperialistas. Afinal, a internacionalização dos fatores de produção (do capital e
do trabalho) não se faz sem crises e necessidades de ajustes por parte dos grupos
dirigentes locais.
Diferentemente da Armênia, que se mantém próxima da influência russa, o Azerbaijão e,
sobretudo, a Geórgia, vêm fazendo o seu dever de casa para ingressar no clube dos
países subordinados às potências ocidentais e poder recompensar suas classes
dirigentes. Estes três países do Cáucaso, que faziam parte da URSS e não passaram a
integrar a Federação Russa (como a Chechênia), vêm sendo assediados pelo consórcio
EUA-Europa em função de sua posição triplamente estratégica: no isolamento da Rússia;
no controle do oleoduto entre o Mar Cáspio e o Mediterrâneo; e numa eventual guerra
contra o Irã.
Vivendo nos séculos XVIII e XIX entre as pressões do Império Turco e do Império Russo
(verdadeiro “cárcere dos povos”, segundo Lênin), o Cáucaso contou com uma relativa
estabilidade e desenvolvimento no período soviético, com um investimento significativo da
URSS em suas regiões mais atrasadas. Ao mesmo tempo em que era dada uma
autonomia relativa às repúblicas e distritos autônomos da URSS (os Oblasts), houve uma
política deliberada de russificação e de impedimento da reunificação de povos divididos
em disputas históricas anteriores – o caso dos ossetas, que mesmo tendo lutado ao lado
dos bolcheviques contra o governo menchevique da Geórgia (1917-1921), continuaram
divididos entre o Oblast da Ossétia do Sul e a República Soviética da Ossétia do Norte.
Em 2003, na Geórgia, prometendo submeter ao controle central as regiões autônomas da
Ossétia do Sul e da Abecásia, Mikheil Saakashvili assumiu a presidência em meio à
“revolução rosa”, um movimento muito parecido com a “revolução laranja” da Ucrânia no
ano seguinte. Estes dois movimentos foram reações populares (apoiadas pelos
estadunidenses) aos governos corruptos e autoritários existentes em seus países, no
mesmo estilo dos governos russos de hoje e do período de apodrecimento da URSS.
Saakashvili dirigiu, logo no início de seu mandato, uma ofensiva contra a Abecásia e
conseguiu afastar os líderes separatistas do governo local, que nos anos 90 haviam
dirigido um processo de expulsão e massacre da população de origem georgiana da
região. Isso aumentou sua popularidade e deu-lhe forças para costurar mais facilmente
alianças com os EUA e a União Européia, tirando a Geórgia de seu isolamento e
dependência histórica dos russos. Como prova da construção destes novos laços, estão
presentes hoje no Iraque 2 mil soldados georgianos!
Os ossetas, por sua vez, vêm desde o fim da URSS buscando sua reunificação com o
norte, pertencente à Federação Russa. Já foram realizados dois referendos de consulta à
população sobre o desligamento da Geórgia, ambos vitoriosos para a causa (sendo que o
último, acompanhado por observadores internacionais, contou com a aprovação de 99%
dos votantes e só 5% de abstenção). Porém, como Saakashvili tem prestado um precioso
papel às potências ocidentais e a própria Rússia parece não se importar com uma
resolução em definitivo da crise na região, nenhuma organização internacional reconhece
a independência da República da Ossétia do Sul e o seu direito de unificação com a
República da Ossétia do Norte.
Nestes conflitos interimperialistas os comunistas não se vêem obrigados a optar por um ou
outro interesse de expansão do capital, por um ou outro equilíbrio de forças
conservadoras. Nossa opção internacionalista será sempre pelo proletariado, que não
3

pode continuar sendo utilizado como massa de manobra pelos senhores da guerra.
Afinal, estes sempre encontrarão um jeito de acertarem suas diferenças, como o fizeram
liberais e nazistas diante da ameaça de expansão do comunismo após a I Guerra Mundial.
Os interesses da Rússia de Putin não são incompatíveis com os interesses dos EUA de
Bush e da Europa de Sarkozy. O desenvolvimento capitalista subordinado é uma fórmula
antiga. E vale lembrar que a Rússia apoiou as operações de guerra dos EUA no
Afeganistão. Foi coerente com o seu próprio discurso de combate ao terrorismo
separatista checheno, o que também explica porque às vezes canta em meio ao coro
contrário ao Irã. No ano passado, por exemplo, Putin propôs a Bush a instalação de uma
base antimíssil comum aos dois países a partir do Azerbaijão, da Turquia e do Iraque,
evitando um eventual ataque iraniano.
Como muitos artigos têm expressado, é curioso o jogo de trocas de sinais nos apoios aos
separatistas do Kosovo, da Chechênia e da Ossétia do Sul. Cada potência imperialista
apóia (com armamento e manipulação midiática) o separatismo que melhor lhe convém.
Lamentamos mesmo o quanto as experiências socialistas da URSS e da Iugoslávia não
foram capazes de desarmar ódios antigos entre estes povos historicamente manipulados,
no sentido de desenvolverem uma sólida cultura de fraternidade e cooperação. É imenso o
patrimônio histórico representado pela riqueza e diversidade cultural, lingüística e étnica
dos Bálcãs e do Cáucaso, o que o socialismo soube preservar. Mas é inegável o quanto
estes povos e suas economias são extremamente dependentes. A falta de uma política de
unidade estratégica e respeitosa entre os povos destas regiões só facilita a perpetuação
de sua exploração, manipulação e massacres comandados pelas classes dominantes
internas e externas.
As lutas por independência e autodeterminação dos povos sempre serão justas e
favoráveis à classe trabalhadora, desde que não sejam objetos de interesse dos pequenos
e grandes sócios do capital. Por outro lado, a progressiva internacionalização das classes
e das relações de produção do capitalismo, torna o mundo cada vez mais
interdependente. Uma efetiva autodeterminação dos povos não será fruto apenas do
enfrentamento a inimigos locais, ela só será possível na medida em que formos
levantando as barreiras históricas impostas pelo processo mundial de acumulação de
capital. Enquanto o capitalismo predominar, haverá guerra e destruição.
Diante disso, os comunistas devem renovar o chamado revolucionário pela paz contido n’A
Internacional:
Fomos de fumo embriagados,
Paz entre nós, guerra aos senhores!
Façamos greve de soldados!
Somos irmãos, trabalhadores!
Se a raça vil, cheia de galas,
Nos quer à força canibais,
Logo verá que as nossas balas
São para os nossos generais!

A “Nação paulista”: uma

opção diante da crise

final do imperialismo

brasileiro

Cássia Chrispiniano Adduci∗

Resumo

A partir da década de 1870, começaram a ser discutidos no Brasil diversos projetos

alternativos de organizações política nacional. Projetos que enfrentavam o desafio de

tornar viável uma nação com um povo mestiço e localizada em país de clima maléfico.

Em oposição às soluções que pensavam a nação em sua integralidade, surgiu uma

proposta que enfrentou o problema “extirpando” os “obstáculos”. Trata-se do ideal

separatista paulista de 1887. Seus ideólogos apresentaram a proposta de construção

de uma “pátria paulista”, objeto de análise deste artigo.

No conjunto das pesquisas sobre o período de passagem do Império para

a República no Brasil, a documentação sobre o movimento separatista

ocorrido em São Paulo, em 1887, não tinha, até o memento, sido examinada.

Foi este o objetivo do meu trabalho de mestrado ao buscar identificar as

características do ideário produzido pelos adeptos do separatismo paulista:

seus aspectos doutrinários, suas propostas, seus ideólogos e propagandistas.

Como as idéias de superioridade e autonomia veiculadas pelo ideal separatista

estiveram ligadas a construção da “mística paulista” durante a Primeira

República (Costa, 1987: 146), pareceu-me importante analisa-las detidamente

no momento em que, pela primeira vez, elas apareceram mais explicitamente

na história de São Paulo. A justificativa para a autonomia exigiu a elaboração

de uma “pátria paulista”, tema que constitui o foco de atenção deste artigo.

Elaborado em um dos vários momentos da história do Brasil em que se

tematizava a nação, o ideário separatista surgiu como uma das opções para a

superação do contexto de crise que marcava o país em finais do século

passado. Alternativa, é verdade, que escolheu o caminho da exclusão . Foram

Mestranda em Ciências Sociais pela PUC-SP e membro do Neils.

diversas as soluções elaboradas na tentativa de viabilizar um país que via ruir

sua estrutura monárquica e escravista diante de pressões , cada vez mais

intensas e freqüentes, para ampliar os contornos da cidadania.

E Estado brasileiro possuía um território determinado – umdos requisitos

para a construção de uma nação -, mas, como Estado escravista, era marcado

por uma profunda desigualdade entre seus indivíduos, o que produzia sérios

obstáculos à plena organização de uma comunidade nacional. Pois um

requisito fundamental para que se configure é a constituição de todos os

membros da sociedade como indivíduos essencialmente livres e iguais, ou

seja, como cidadãos.

Esta realidade não impedia, no entanto, a existência de um pequeno grupo

com representação política e que se via como membro de uma nação, usando

a definição de Benedict Anderson – uma “comunidade política

imaginada”como limitada e soberana (Anderson, 1989: 14). O recorte

cronológico de meu estudo – o ano de 1887 – está inserido exatamente no

momento em que se questionava o contexto escravista e se propunha o

estabelecimento de uma igualdade, ao menos formal, entre os indivíduos, o

que os tornaria cidadãos. Neste período, uma das facetas da crise foi a

emergência de uma questão nacional e, com ela, de nacionalismos. Pressionar

para que se ampliasse a comunidade nacional era, em larga medida, lutar para

constituí-la em sua plenitude.

Todavia, tanto a idéia de liberdade como a de igualdade não eram de fácil

aceitação em uma sociedade marcada por uma profunda desigualdade entre

seus indivíduos, herança de sua tradição escravista. Assim, no Brasil de finais

do século XIX, recolocou-se a questão com a qual se haviam defrontado os

responsáveis pela organização do pais após sua emancipação: o

estabelecimento dos limites que definiram a cidadania brasileira.

Evidentemente, a realidade era outra. Novos grupos sociais haviam surgido, a

legitimidade da coroa desintegrava-se, abrindo a possibilidade de que uma

nova forma de coesão fosse construída: a legitimidade nacional. Mas a

constituição de uma nação implicava o estabelecimento da liberdade e da

igualdade, idéias que por tanto haviam aterrorizado os grupos que dominaram

o país. As soluções apresentadas para que se pudesse constituir plenamente

uma comunidade nacional no Brasil, basearam-se na aproximação entre

liberalismo, democracia, positivismo e as teorias deterministas raciais e do

meio.

A “nação paulista”: linhas gerais

A partir, principalmente, dos jornais da época identifiquei as características

do ideário separatista paulista. Este estudo me permitiu ver de que forma os

separatistas paulistas responderam ao desafio que se colocava para os

intelectuais brasileiros di período: que nação seria viável com um povo

mestiço e localizada em um país de clima maléfico?

Foram quatro os principais ideólogos de separatismo paulista de 1887:

Alberto Sales, Martim Francisco Ribeiro de Andrada, Francisco Eugênio

Pacheco e Silva e Joaquim Fernando de Barros. Apenas com alguns pontos

discordantes, as propostas tinham em comum o desejo de justificar a

necessidade e a possibilidade da emancipação paulista. Para atingir este

objetivo, os autores lançaram mão dos mais diversos argumentos: de uma

base cientifica a um simples procedimento contábil.

Representando os interesses de parte do grupo dos cafeicultores do Oeste

paulista, os ideólogos separatistas elaboraram uma solução polemica. As

reações controversas que a idéia gerou foram rebatidas pelo “caráter

cientifico”com o qual, em maior ou menor grau, todos os ideólogos

esforçaram-se em basear seus discursos.

Alberto Sales foi o autor que de forma mais elaborada se preocupou com

a justificativa “justificativa”do separatismo. Em A Pátria Paulista, seu objetivo

era explicar, “cientificamente”, as idéias separatistas. Ficam evidentes na obra

as influencias que o autor sofreu de Comte, especialmente a constante

preocupação com a importância social da ciência, poderoso meio de analise e

de mudança social, responsável pela manutenção da “ordem” e pela garantia

do “progresso”. Mas a forte concepção evolucionista e organicista do autor

foi influenciada, principalmente, por Herbert Spencer. Sales analisou a

situação política brasileira preocupado em demonstrar um processo de

passagem do homogêneo para o heterogêneo, mesmo modelo de analise

usado pelo autor inglês (Ferrarotti, 1975). Este raciocino respalda, em

Alberto Sales, a passagem da monarquia para a republica, do unitarismo para

o federalismo, passando, no caso de A Pátria Paulista, pela separação.

O separatismo adquiria, então, um aspecto inevitável. Idéia que estava

presente também nos demais ideólogos. Esta vinculação contribuía na

tentativa de diminuir as resistências e as criticas, na maioria das vezes ligadas

ao egoísmo da província e ao caráter utópico do ideário. Além disto, ligando

o separatismo com os evolucionismo, seus propagandistas – notadamente os

republicanos – também desejavam destituí-lo de um aspecto

“revolucionário”que poderia amedrontar possíveis adeptos. Artigo de J.F. de

Barros publicado em 22 de fevereiro, no jornal A Província de São Paulo,

demonstra esta preocupação:

(…) destinamos a quota de 50 mil contos para ser applicada nos trabalhos e

diligencias necessárias para a nossa completa emancipação, sem movimentos

armados, sempre nocivos a quem os emprega. Hoje que as ideas sobre a

sociologia moderna imperam, os meios revolucionários tambem, é natural,

devem-se amenizar (A província de São Paulo, 22.2.1887).

O aspecto “cientifico” do ideário possibilitou solucionar outro dos

aspectos existentes: a questão racional. Ignorando a presença indígena

e restringindo a importância do negro, a melhor alternativa, para que se

pudesse dar continuidade ao processo de construção da “pátria

paulista”, foi a adoção do imigratismo. Este seria um fator capaz de

embranquecer a população, além de adequá-la aos desejos de “ordem”

e “progresso”que norteavam os ideólogos.

Alberto Sales, por exemplo, relacionou diretamente o crescimento

da população com o aumento da riqueza de um país. Neste sentido, o

primeiro problema a ser solucionado seria o do povoamento, via

imigração:

Só poderemos ser grandes e fortes, quando o território de nossa província

fôr occupado por uma população densa e laboriosa. Ora, a solução do

problema está na imigração (…) (Sales, 1887: 144).

O contexto de insegurança e desordem que caracterizou a década de 1880

deu maior poder para as propostas imigrantistas que evidenciavam claramente

seu “sentido racista”. A diversidade social e racial preocupou vários

reformadores do período, não somente os separatistas. Esses ideólogos,

adotando as teorias racistas, acabaram encontrando uma solução na proposta

imigrantista: a entrada de brancos europeus permitiria “melhorar” a nação

que se preocupavam em equacionar. Como mostra Célia Maria M. de

Azevedo, a imagem do imigrante europeu – o imigrante defendido nos

diferentes projetos – estava associada “à ordem, moralidade e progresso”

(Azevedo, 1897).

As referencias à imigração remetiam ao debate sobre a escravidão e o

problema de mão-de-obra. De modo geral, todos os separatistas se

preocuparam em afirmar que o fim da escravidão na província não

amedrontava e que, aos poucos, o problema seria solucionado. Martim

Francisco, além de defender a vanguarda de São Paulo em relação às Outras

províncias do Império no que se refere ao fim da instituição escrava,

demonstrava uma visão conservadora e autoritária que esteve presente

também nos demais discursos:

Desiludam-se os retrogados: a província de S.Paulo não soffrerá com a

substituição do braço escravo o abalo que os pregoeiros de desgraças

annunciam, é bastante conservadora e energica; dispensará sem esforço a

pessima collaboração dos ministros e dos deputados do norte para fugir a

um regimen atrazado e antipathico. Ella tem confiança no futuro, habito de

trabalho e properidade financeira. Com uma simples lei de coação ao

trabalho, imitada do que se pratica em vários cantões da Suissa e modificada

pelas conveniências e pelas condições da província, ficará a lavoura paulista

a salvo dos sustos que os brazileiros procuram incutir-lhe (A Província de

São Paulo, 20.11.1887).

O federalismo – eixo da discussão entre centralização e descentralização

– foi tema chave das exposições. Feps e J. F. de Barros explicitamente

rejeitavam a idéia de uma posterior federação. Para Alberto Sales e Martim

Francisco, ela constituiria o objetivo final, para ser atingido, deveria passar

pelo separatismo. Na verdade, porém, todos trabalhavam com a idéia de uma

federação excludente. Maior ou menor, a “pátria paulista” não reincorporaria

todas as ex-províncias do Império. A definição de Sales ilustra a exclusão

pretendida:

Para nós, a federação que se formar, depois da separação de S. Paulo, não

poderá ser sinão sulista. O valle do Paraná será o seu corpo geographico. Ë

esta a nossa convicção e este o nosso vaticinio. Os relevos orographicos do

solo, por um lado, e a constituição ethbica da população, por outro, nos

impoem aquella convicção. Eis o que representa para nós a Pátria Paulista

(Sales, 1887: 271).

A concepção de nação dos autores também não diferia em sua

essência.

Elementos objetivos como tradição histórica, caráter, origem, etnia,

limites geográficos, identidades de interesses foram utilizados. J. F. de Barros

exemplifica esta noção em trecho de artigo publicado em A Província de São

Paulo de 5 de março. Afirmava o autor ao responder a acusações de que a

província estaria manifestando “sentimentos egoístas” ao desejar a separação:

A isto responderemos nós – que nunca a philantropia ou a caridade foram

bases de solidariedade nacional. Muito diversos são os élos que devem ligar

os povos entre si – a reciprocidade de serviços prestados e identidade de

costumes, interesses língua, etc. são os unicos factores de união. No caso

desta nossa província relativamente ás outras (fallo só das que vivem à nossa

custa e das nossas irmãs , productoras) não se dá essa reciprocidade – para

ellas tudo; para nós as honras de bom pagador”(A Província de São Paulo,

05.03.1887).

Somente Martim Francisco trabalhou com um elemento subjetivo: o

“paulista” poderia sê-lo por opção: “Paulista é todo aquelle que habita a

província de S. Paulo com animo de ahi permanecer” (Diário Popular,

05.04.1887).

A tradição histórica foi construída , principalmente, sobre a figura do

bandeirante. Suas características foram associadas às aptidões dos paulistas:

iniciativa, coragem, audácia, vigor, capacidade de conquista e elemento

civilizatório. A figura do bandeirante permitia aliar uma heróica tradição

histórica com o território almejado para a constituição da “pátria paulista”.

Unia-se passado comum e território: elementos essenciais à construção de

uma nacionalidade. Nas palavra de J. F. Barros:

Já vem, pois, esse que tanto se estão incommodando por causa destas

tendencias separatistas, manifestadas por S. Paulo; que temos mesmo no

passado solidos fundamentos para sermos dignos de fazer vida

independente. Os nossos antepassados percorreram o Brazil inteiro de

extremos a extremos, levando a civilisação d’aquelle tempo por todos os

recantos. Hoje os seus dignos descendentes cortaram o territorio paulista de

innumeras vias de communicação por terra e por agua e levaram o

progresso por todos os seus confins. Abriram caminho ao mundo inteiro –

pagando transporte ás companhias transatlânticas, para todos que quizerem

vir collaborar comnosco no aproveitamento deste paraizo da America. Tudo

isto feito só por iniciativa e esforço do paulista, sem um ceitil dos vadios da

rua do Ouvidor (A Província de São Paulo, 5.4.1887).

O descontentamento em relação ao tratamento dispensado pelo poder

central à província de São Paulo foi outra característica dom ideário. Eram

vários os pontos que expressavam este problema: falta de verbas, altos

impostos que não eram convertidos em                 beneficio da província,

desproporção entre deputados paulistas e sua população. No discurso dos

separatistas ficava clara a intenção de ver a “província” ampliar sua esfera de

autuação política até que esta, ao menos, se aproximasse da proporção de sua

contribuição econômica ao Império. Martim Francisco (Nemo) foi o ideólogo

que mais intensamente criticou a atuação imperial na área financeira:

Nós garantimos a estabilidade do imperio com vinte contos annuaes. O

imperio nos garante a vida com três contos de réis. Tanhamos paciencia.

Nada de reclamações exageradas. É provável que dentro de um século

obtenhamos algum auxilio do governo. Não ha motivo para desanimar

desde já (Diário Popular, 22.1.1887).

Decididamente somos um povo feliz. Progredimos na paciencia tanto

quanto o império progride nas arrecadações (Diário Popular, 5.3.1887).

Custa-nosso imperio, este anno, mais de vinte mil contos. Recusa-nos

quinhentos mil réis. A província-carneiro continúa a apanhar sem

ragir”(Diário Popular, 11.3.1887).

Negam a esta província quinhentos mil réis para expediente da policia e

arrecadam mais de mil e trezentos contos em um mez! Gente de sangue frio

– que paga e a que recebe (Diário Popular, 2.4.1887).

Os protestos sobre os cortes de verbas para a polícia da província foram

constantes não só nos artigos de Nemo. Diversos autores que participaram de

forma intensa do debate em torno das idéias separatistas paulistas igualmente

reclamaram, assim como o assunto também apareceu nas sessões da

assembléia provincial. Era um período agitado como foi a década de 1880,

com um processo cada vez mais acelerado de desestruturação das relações

escravistas, o papel da forca policial aumentou de forma significativa. A

polícia, durante o Império, respondia pela manutenção da segurança e pela

tranqüilidade da ordem pública – às quais se juntou, no final do século XIX, a

repressão às revoltas escravas. Toda esta problemática é avaliada por Maria

Helena Machado que estaca ainda o crescimento destas rebeliões e seu

alastramento para as zoas urbanas, expondo a falta de controle dos senhores

sobre seus escravos e forçando o “envolvimento, algumas vezes a

contragosto, da estrutura policial, com a questão servil”(Machado, 1994: 69).

A autora também aponta a desproporção entre as importantes

atribuições da policia e seu precário aparelhamento material e humano. Esta

desproporção pode ajudar a esclarecer as reiteradas reclamações separatistas

sobre os cortes de verbas ou os constantes pedidos de apoio à força policial

paulista. A justificativa aparece nas palavras de Maria Helena Machado: “O

papel dos órgãos policiais tornava-se passo a passo mais estratégico – tratava-

se, desta forma, não apenas de defender os interesses senhoriais mas,

também, de manter o monopólio do poder de repressão, evitando o

desencadeamento de uma situação de confronto entre as forças pró e contra

abolição” (Machado, 1994: 72).

Mas as críticas iam além dos cortes para a força policial, envolvendo

toda a distribuição de verbas feita pelo poder central. A organização das

contas públicas pode constituir um “excelente indicador da distribuição de

poder em um sistema político” (Carvalho, 1988: 23). No embate por verbas

explicitam-se os grupos com capacidade de “negociação” e a resposta aos

seus pedidos permite averiguar sua força junto ao Estado. Por outro lado, o

problema fiscal durante o período monárquico pode também ilustrar sua

crise, explicitada no confronto entre centralização e descentralização.

Em texto no qual analisa a questão final no final do Império, Wilma

Peres Costa apresenta esclarecedoras informações sobre a economia e as

finanças brasileiras. Baseando-se no trabalho de J. F. Normando, a autora

destaca alguns pontos. Em primeiro lugar, o país tinha um problema crônico,

uma “penúria estrutural de recursos”, a que se deveria adicionar um

desequilíbrio entre o que as diferentes províncias arrecadavam e o que

recebiam. A questão complicava-se porque a principal fonte de tributação – o

comércio exterior – era disputado entre o poder central e os provinciais, além

de que o Estado não era eficiente na taxação da maior fonte de riqueza do

país – os latifundiários. Os déficits orçamentários eram generalizados,

maiores no nordeste, mas incluindo também as províncias do centro-sul.

Neste contexto, as reclamações, as reclamações eram múltiplas,

envolvendo todas as províncias que, como aponta Wilma Peres Costa,

transferiam indistintamente – exceção para o Rio Grande do Sul e Mato

Grosso – recursos para o corte. A autora ajuda a esclarecer o contexto que

deu espaço ao nascimento das reivindicações separatistas paulistas:

A conjunção que se formava, num sistema que centralizava na Corte os

recursos fiscais e também o crédito externo e interno, se expressava nas

queixas generalizadas e mútuas entre as regiões prósperas e as estagnadas ou

decadentes quanto ao favorecimento na distribuição dos recursos escassos.

Crescentemente, também, tendiam a focalizar o descontentamento no Rio

de Janeiro e na centralização característica do Estado Imperial. É preciso

também ter em mente que as criticas em relação à monarquia não se

limitavam ao sistema fiscal, mas se estendiam a todas as dimensões do

sistema político (…)” (Costa, 1994:31).

O separatismo assumiu ainda uma postura critica diante do Partido

Republicano Paulista. Alberto Sales não concordou com a rejeição da moção

separatista empreendida pelo partido durante seu congresso de 1887. Mas

Feps e Barros cobraram um papel muito mais atuante. Na palavras de Feps:

Do modo pelo qual está constituída a sua relação para com o império, S.

Paulo não passa de uma feitoria ou colonia africana ou asiatica para com a

metrópole européa. Escrevendo estas linhas temos em vista exhortar o

partido republicano a estudar esta nossa manifestação da vitalidade da

opinião paulista, sendo talvez conveniente alterar o programa republicano,

fundindo-o no molde desta nova aspiração que se levanta tão pujante e tão

sympathica: sympathica, dizemos, pois que temos observado que muitos

bons espiritos de ambos os partidos monarchicos, aos quaes corria

indiferente a propaganda republicana mostram-se muito sympathicos á

causa da separação, tal é a iniqüidade e o absurdo dos liames entre a

provincia de S. Paulo e o imperio (Diário Popular, 11.2.1887).

J. F. Barros afirmava:

Se o partido republicano paulista quer ir a reboque dos outros, como

procedeu com a questão servil, apresentando-se agora tardiamente com o

seu manifesto abolicionista, para arrombar porta aberta; é dizer francamente,

para não estarmos perdendo tempo incompatibilisados de prestar serviços á

nossa patria, porque estamos seguindo um partido, que nunca sahirá do

platonismo de esperar que a republica se faça por si mesma, se assim nos

podemos exprimir para depois

entrarmos na posse della? (A Província de São Paulo, 9.6.1887).

Para finalizar, resta mencionar que as argumentações separatistas eram

voltadas para uma base de apoio muito restrita. Seus ideólogos não se

dedicaram, efetivamente, em criar uma proposta de mobilização que

envolvesse a população como um todo, incluindo outros elementos que não

os pertencentes ao grupo dominante da província. Não foram poucos os

momentos em que este caráter elitista apareceu. Como exemplo, é possível

citar a proposta de indenização feita pó J.F. de Barros:

Hoje nem mesmo o escravo é obrigado a servir o seu senhor, desde que

exhiba o seu preço. A província de S. Paulo não quererá utilizar-se da lei

Saraiva para comprar a sua liberdade? (…) Appelle a monarchia para ella se

for capaz, e verá o patriotismo paulista se fazer no dinheiro e apresental-o

incontinente. Da minha parte ponho á disposição 5% do que possuo, e

assim, e ainda mais, farão todos. Calcule-se a colossal fortuna de S. Paulo e

digam-nos se essa pequena porcentagem, que todos pagarão como

emprestimo, qual primeiro não será sufficiente para obter a nossa alforia e

desde logo entrar-mos a nos governar a nós mesmos?… (A Província de São

Paulo, 13.02.1887).

O mesmo traço elitista também pôde ser identificado quando os

separatistas discutiam os limites de sua propaganda (limites representados

pelo grau de analfabetismo ou pelo caráter restrito das conferências).

Efetivamente não surgiu nenhuma proposta que objetivasse mobilizar a

população como um todo. Mesmo porque, pelo grau de agitação da província

à época, esta idéia (se é, em algum momento, chegou a ser considerada)

deveria trazer muitas inseguranças.

Assim, a “pátria paulista” idealizada parece-me uma solução limite diante

do problema que se colocava a todos que se preocupavam em viabilizar a

nação brasileira. Com base nos interesses específicos de parte dos

cafeicultores do Oeste paulista, os separatistas esforçaram-se em construir

uma nação capaz de se contrapor à brasileira. Frente a um país mestiço, estes

ideólogos, associando evolucionismo social com determinismo geográfico e

racial, projetaram uma pátria geograficamente determinada, rica, branca e, por

isto, promissora.

Bibliografia

Jornais

A Província de São Paulo (1887)

Diário Popular (1887)

Anais

Anais da Assembléia Provincial de São Paulo (1878)

Livros

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construção de um símbolo paulista: o bandeirante). Tese de doutorado. São Paulo,

FFLCH da Universidade de São Paulo.

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Rio de Janeiro, Paz e Terra.

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Toni Gisbert

http://www.primeiralinha.org/abrente/toni36.htm

No caso dos Països Catalans, naçom e língua som dous conceitos profundamente interrelacionados: umha e outra nascêrom de maos dadas, evoluírom juntas e o futuro que tenhem à frente é comum. É revelador, neste senso, o facto de os estados espanhol e francês agirem em conseqüência, a concentrarem os seus principais esforços -antes e agora- na assimilaçom lingüística.

O tema nom é para ficar estranhado: os Països catalans som um claro exemplo de naçom em permanente construçom, de contínua integraçom de recém chegados, de terra de passagem, atractiva polas suas condiçons naturais e as suas possibilidades económicas. Mas, como todo povo, este tem também a sua argamassa, o seu elemento de coesom, identidade interna e externa: a língua. Assim, podemos marcar os limites territoriais dos Països Catalans fundamentalmente com a sua fronteira lingüística. Por isso, se deixarmos de falar catalám, passamos a ser outra cousa: um apêndice regional, mais ou menos particularizado, de França ou de Espanha.

Ora bem, como toda naçom sem Estado que, além do mais, é vítima de umha tentativa -dupla: espanhola e francesa- de assimilaçom, a homogeneidade nacional (subjectiva, de consciência, mas também objectiva, de contingente nacional estrito) varia de umhas areas para outras do País. Nom é o mesmo, por dizer de maneira simples, a Catalunya Norde, duramente punida polo jacobinismo francês e hoje terra de destino de funcionários franceses reformados, que a Catalunha estrita, território que viu nascer a língua e que melhor a conserva, e com ela a identidade e a consciência (e também a percepçom que de fora existe da sua diferença).

E também, como naçom, os Països Catalans tenhem o seu ponto chave de articulaçom, o seu ponto nodal em torno do qual gira o eixo do País: o que liga o País Valencià com o resto dos Països Catalans e, particularmente, com o Principat de Catalunya. A razom é simples: estes dous som os territórios com maior peso demográfico e económico, e a quantidade e qualidade das suas trocas comerciais, bem como o nível de integraçom sócio-económica que tem, é a coluna vertebral do País. O litoral mediterránico funciona neste caso como um rio, como um ponto de uniom: o eixo discorre em direcçom Norte-Sul e às avessas, e giza umha das linhas de desenvolvimento económico e cultural mais importantes da Europa ocidental desde a época medieval. Para o percebermos, cumpre olhar o Mediterráneo catalám como um segundo Rhin, como um Danúbio, ambos articuladores de espaços económicos, culturais e lingüísticos.

Espanha, esse projecto inconcluso que vive em crise permanente, sabe-o: daí a sua estratégia de converter o Ebro -outro rio que historicamente tem unido, no seu caso a Catalunha e o Aragom medievais- em fenda por onde penetrar para dividir (lembre-se por onde foi que entrou o exército franquista na Catalunha e o País Valenciano), em ponta de lança que, a partir de Castela, tenciona ganhar o mar para umha Meseta governada por umha burguesia ansiosa de articular radialmente umha periferia peninsular infinitamente mais produtiva. Apenas Portugal escapou. Por enquanto.

Separar o País Valenciano de Catalunha: eis o projecto político para poder redireccionar o eixo Norte-Sul e vice-versa do litoral catalám num duplo eixo Barcelona-Madrid e Valência-Madrid de espoliaçom fiscal e económica para sustentar a “villa y corte” madrilenas e o seu sonho imperial fracassado. E para impulsionar a estratégia, o campo de batalha escolhido é o País Valenciano e, particularmente, a sua capital, a cidade de Valência. Se tomarmos esta perspectiva, poderemos perceber boa parte do que se passou durante a chamada Transiçom espanhola (da ditadura à monarquia nomeada por Franco) neste território.

Do secessionismo à “terceira via”: as tentativas de separar o País Valencià dos Països Catalans

Pompeu Fabra é conhecido popularmente como “o génio ordenador da língua catalá”, porque ele impulsionou a criaçom do padrom lingüístico que actualmente, e desde princípios do século XX, rege o catalám. Polas chamadas Normes del 32 (polo seu ano de aprovaçom), o País Valenciano assumiu a norma fabriana. Portanto, desde 1932 o nome científico da língua e a sua codificaçom ficárom claros. Nem o franquismo o contestou: a ditadura fijo foi proibir o uso público do catalám, o qual, seja dito de passagem, longe de representar qualquer novidade, ficava inscrito na secular tradiçom espanhola de perseguiçom das línguas nom castelhanas que num momento ou outro padecêrom o jugo do seu império. O franquismo nom foi nisso pior do que a monarquia borbónica, a qual inaugurou a sua dinastia com a ocupaçom militar dos Països Catalans num afastado 1707, e a posterior derrogaçom de leis e instituiçons próprias, “por justo direito de conquista”, segundo di literalmente o Decreto de Nova Planta que nos impujo as leis -e, com elas, a língua- de Castela.

Mas, durante o tardofranquismo, emergiu um populismo conhecido como secessionismo porque propugnava que o valenciano é umha língua diferente do catalám. Para percebermos como aconteceu, haverá que ter muito em conta que naquela altura ganhava cada vez maior força o nome de Joan Fuster (talvez o principal pensador catalám do século XX, e sem dúvida o mais revulsivo), movimento que propugnava um projecto nacioinal para o País Valenciano de modernizaçom social e reencontro com o seu espaço natural (lingüístico, cultural, histórico e económico): os Països Catalans. O tema preocupava, já que de se produzir tal reencontro, a articulaçom territorial do Estado, e a sua mesma continuidade, corria risco: por demografia e economia, o eixo castelhano-andaluz nom podia contrarrestar uns Països Catalans articulados.

Entom, o aparelho de Estado mobilizou-se. Mobilizou-se mesmo. Desde os fins do franquismo, impulsionou-se (com dinheiro, publicidade e utilizaçom do sentimentalismo de raiz localista existente em qualquer território) o secessionismo. Nom se conseguir contrapor um outro projecto frente ao fusterianisme: na discussom racional, perdiam. A batalha tinha de ser levada para o terreno da demagogia. E fijo-se até as últimas conseqüências.

A transiçom no País Valenciano, e particularmente na cidade de Valência, foi violenta. Um autêntico progrom -perseguiçom indiscriminada- de todo um sector social. Houvo bombas, agressons a manifestaçons e actos públicos, violência verbal e física. E ainda esperamos que a Polícia espanhola detenha algum presumível culpado. Um populismo parafascista freou um potencial de mudança: a questom era razom de Estado. O resultado foi o Estatuto actual, que desenha umha autonomia de baixo perfil político e com as questons identitárias sem resolver. Um tema chave, o da língua, ficou na ambigüidade: o Estatuto julga o valenciano língua cooficial, mas nom especifica o que é que é isso do “valenciano” (enquanto o estatuto balear fala das “modalidades insulares do catalám”). Essa ambigüidade tem alimentado contínuas agressons a qualquer tentativa de extensom do uso social do catalám e, sobretodo, trasladou propositadamente a discussom da tal extensom para os debates nominalistas, estéreis e esgotadores.

Apesar de todo, o trabalho de diversas entidades -entre elas, a ACPV- e de milhares de pessoas, permitiu deter tanto despropósito, evitando a consolidaçom de umha fractura que, de se ter consolidado, teria significado a conversom do País Valenciano na praia de Madrid. Em lugar disso, há que citar dous interessantes processos:

– no que di respeito à língua, a teimosia das entidades ao nom aceitarem tentativas secessionistas por parte da direita e o nosso recurso permanente à batalha jurídica, tem proporcionado importantes vitórias ao campo do reconhecimento jurídico da denominaçom científica de catalám para o valenciano; cumpre salientarmos nesta linha umha sentença do Tribunal Constitucional espanhol (a 75/1997) e até seis sentenças (por enquanto) do Tribunal Superior de Justiça valenciano.

– quanto à articulaçom do País Valenciano com o resto dos Països Catalans, a emergência da realidade económica e social conhecida como Arco Mediterránico, e a extensom social de reivindicaçons como a de infraestruturas para o tal Arco ou da necessidade de acabar com o défice fiscal que padecemos em benefício do Estado que nos espolia, som elementos com cada vez mais força.

Ambos processos tenhem restado base e força ao populismo secessionista, obrigando a direita espanhola a tentar umha nova via: a conhecida como “terceira via”, consistente na extrema dialectalizaçom do valenciano para, sem chegar ao secessionismo formal, alimentar um projecto que conduza nessa direcçom. O truque consiste em usar exclusivamente a denominaçom “valenciano” para a língua, potencializar as palavras, frases e construçons mais dialectais e criar umha nova entidade normativa (a Acadèmia Valenciana de la Llengua) como instrumento para reduzir o ámbito de autoridade normativa do Institut d’Estudis Catalans. Que conseqüências pode ter isso todo na seguinte geraçom de catalanofalantes do País Valenciano? Para contrarrestar este potencial de isolamento do País Valenciano do resto da comunidade lingüística som suficientes as manifestaçons e apelos ao voluntarismo militante: há que garantir -e ainda reforçar- a articulaçom material da comunidade lingüística.

Articular a comunidade lingüística de maneira real e concreta

Acció Cultural del País Valencià (ACPV) é umha entidade que tem 30 anos de existência e por volta de 7000 associados e associadas. Está federada com Òmnium Cultural (da Catalunha) e Obra Cultural Balear: as três fam parte da Federació Ramon Llull, que agrupa milhares de associados e associadas e abrange todos os Països Catalans. Os principais eixos estratégicos do nosso trabalho durante estes anos tenhem sido:

– ensino do catalám: mediante os Cursos Carles Salvador (um pedagogo da época da II República), formárom-se 10.000 professores de catalám;

– a Escola d’Animació i Esplai tem formado também milhares de jovens como monitores de centros de férias, impulsionando umha concepçom laica e flexível do tradicional escutismo contra o tradicional monopólio da Igreja nesse campo no País Valenciano;

– a criaçom de umha rede de repetidores permitiu fazer chegar ao País Valenciano o sinal das televisons (TV3 e Canal 33) e rádios (Catalunya Ràdio) catalás, com o qual se articula um espaço nacional de comunicaçom de massas;

– a dinamizaçom juvenil e as mobilizaçons (com manifestaçons multitudinárias cada 25 de Abril, comemoraçom da derrota em Almansa, em 1707, a maos das tropas castelhanofrancesas do primeiro bourbon).

Mas, principalmente, a preocupaçom da nossa entidade tem sido, e é, a articulaçom real e concreta da comunidade lingüística. Porque por muitas manifestaçons que forem realizadas, por muitas campanhas voluntaristas a reclamar o envolvimento de cada pessoa e particularmente a fidelidade lingüística dos catalanofalantes ante os obstáculos diários para viver em catalám, por muitas rotulagens públicas que forem feitas… umha língua mantém-se na medida que se mantiver articulada a comunidade lingüística que lhe serve de base material e lhe permite sobreviver. Desse ponto de vista, cada dia tem mais importáncia a articulaçom dos Països Catalans.

Nesta linha, é importante a existência de ámbitos de articulaçom como o universitário (o Institut Joan Lluís Vives é a rede que agrupa todas as universidades do ámbito lingüístico catalám), juvenil (os Conselhos da Juventude da Catalunha, País Valenciano e Ilhas Baleares partilham um protocolo formal de coordenaçom) ou empresarial (a coordenaçom da pequena e mediana empresa -as organizaçons empresariais Sefec-Pimes da Catalunha e Ilhas Baleares e L’Empresarial do País Valenciano constituírom umha mesa permanente- acrescentam-se os cada vez mais habituais encontros entre o grande patronato valenciano e catalám).

A ACPV impulsionou por seu turno iniciativas de articulaçom em ámbitos como o institucional (a Assembleia de Regidors, por exemplo, conta com a participaçom e apoio de cerca de 400 concelhos dos Països Catalans) e outros, no convencimento de que a emergência da realidade material da articulaçom económica, social e cultural do ámbito dos Països Catalans e o seu crescente reconhecimento político (com propostas como a da Euro-regiom) é a estrutura que mantém articulada a comunidade lingüística e pode ser chave no futuro da língua catalá e, com ela, da naçom catalá no seu conjunto. Na medida que essa articulaçom alicerçar, o processo de identificaçom subjectiva dos cidadaos com o projecto nacional e a sua “desidentificaçom” com um projecto que, além de estranho nacionalmente, é historicamente caduco, abre perspectivas interessantes no futuro.

Toni Gisbert,
Coordenador de Acció Cultural del País Valencià